O trabalhador à deriva

Não sei se intuitiva ou intencionalmente, algumas cenas de ARÁBIA, o filme vencedor do Festival de Brasília, o inserem numa certa tradição do cinema operário neorrealista brasileiro. O garoto correndo de bicicleta na abertura evoca o Guarnieri de O Grande Momento, enquanto as conversas no alojamento dos operários lembram uma célebre sequência de O Homem que Virou Suco. ARÁBIA pode ser visto como a repercussão desse projeto de cinema no século XXI.

A maior alteração, a meu ver, é o distanciamento assumido pela narrativa. O périplo do operário Cristiano por diversas ocupações e encontros em cidades mineiras é contado através de um diário lido a posteriori, enquanto ele está internado depois de um acidente de trabalho. A opção pelo relato em off afasta qualquer sentido de urgência, substituído por uma pátina de rememoração literária. O fato de o diário estar sendo lido por um personagem mais ou menos alheio à história, e que assim permanecerá até o fim, acrescenta mais um grau de separação entre realidade e enunciação. De certa maneira, o filme assim se resfria e se intelectualiza.

A predominância do off elimina parcialmente o personagem da ação, daí o meu espanto com o prêmio de melhor ator conferido a Aristides de Souza em Brasília. Não vi qualidade especial numa performance frequentemente sorumbática e sabotada pela sua situação de coadjuvante em quase todas as cenas de que participa. Da mesma forma, o prêmio de trilha sonora não se justifica, uma vez que esta, apesar de abundante, é composta por canções e música árabe não originais. Mas esse tem sido um erro comum de júris brasileiros.

Vemos Cristiano passar pela prisão e mudar de emprego para emprego, de cidade para cidade. Ora ele está jogando conversa fora sobre assuntos prosaicos da vida operária, como a falta de conforto no dormir ou a preferência por tipos diferentes de carga, ora está ensaiando um romance com funcionária da tecelagem. São momentos em que o filme atinge uma verdade cênica mais palpável. Mas tudo na vida de Cristiano termina num “quase” melancólico, numa promessa de paraíso nunca cumprida.

O trabalhador não é visto aqui como um ser de classe, a exemplo do que era para o Cinema Novo e seus herdeiros. Ele é um indivíduo à deriva, descrente do sindicato e de toda e qualquer estrutura. Nem mesmo o acidente de trabalho com Cristiano recebe maior atenção ou explicação. Há uma sombra de niilismo nesse retrato da classe operária pós-PT.

Niilismo foi também o que vi no longa anterior de Affonso Uchoa, A Vizinhança do Tigre (também com Aristides de Souza). Em ARÁBIA, dirigido em conjunto com João Dumans, os problemas técnicos são minimizados e uma poética dos lugares se estabelece com mais vigor. Uma piada que origina o título do filme sinaliza também a metáfora principal sobre o operário diante de uma vida inteira de suor e esforço. O sonho do trabalhador, de se sentir algo mais que um cavalo velho, continua adiado.

2 comentários sobre “O trabalhador à deriva

  1. Não vi o filme ainda, mas essa crítica – muito pertinente – fala mais do mundo e do Brasil atual do que apenas do filme. É o diagnóstico do estado das coisas e explica muito mais que o cinema.

    • Agradeço o comentário, Eduardo. É verdade que o filme semeia pistas sobre o estado atual das coisas. Embora trate de uma realidade expandida ao longo de vários anos, sua apresentação agora repercute inevitavelmente o Brasil de hoje.

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