Festival do Rio: Uma Mulher Chamada Sada Abe

Um ano antes de Nagisa Oshima filmar O Império dos Sentidos, outro longa já havia contado a história de amor entre Sada e Kichizo. Aquela que terminava com a moça estrangulando o amado e cortando seu pênis para tê-lo sempre consigo. Era UMA MULHER CHAMADA SADA ABE, que está integrando uma mostra especial do “Roman Porno” japonês no Festival do Rio (leia mais abaixo sobre esse gênero).

Assim como o filme de Oshima, este de Noboru Tanaka concentra-se na relação obsessiva e claustrofóbica dos dois amantes, sem muito interesse por qualquer contextualização. O Japão militarizado dos anos 1930 não mereceu mais que duas menções rápidas e indiretas. SADA ABE começa e termina com as páginas dos jornais que noticiaram o fait divers. O resto pouco importa.

Não há sexo explícito nem nudez frontal, mas nem por isso o filme deixa de ser ousado para o mercado cinematográfico da época (1975). Sada e Kichizo se entregam a fantasias e brincadeiras eróticas, quase sempre com um viés sado-masoquista (não resisto a falar em sada-masoquismo, rs). Enquanto Oshima avançava gradualmente para o final trágico, Tanaka pontua o tema da morte desde o primeiro diálogo e o reitera seguidamente através de falas, da presença da faca e de tomadas de um cemitério. O desfecho não é senão o corolário de um vínculo amoroso extremo, que envolve entrega e submissão sem limites (“Faça o que quiser com meu corpo”).

Apesar da produção simples, o filme tem segurança de estilo, uma atuação estupenda da atriz Junko Miyashita – especialmente nas simulações de prazer sexual – e curiosíssimas intervenções da música. Se a memória não me engana, creio que, nesse filme, o projeto mórbido de Sada vai além do que vimos no clássico de Oshima.

Sobre o “Roman Porno”

Os mais de 1000 filmes produzidos pelo estúdio Nikkatsu entre 1971 e 1988, conhecidos como “Roman Porno”, se enquadram no gênero mais amplo dos pinku eiga, ou “filmes cor de rosa”, os soft porn japoneses. Foi a maneira encontrada pela Nikkatsu de escapar da crise na época. Em geral, a fórmula era encaixar cenas de sexo em histórias de qualquer tipo.

O estúdio empregava diretores jovens e visionários, assim como a Boca do Lixo paulista engajava Carlão Reichenbach ou Walter Hugo Khouri. Noboru Tanaka era um deles. Outro era Yojiro Takita, diretor do oscarizado A Partida.

O “Roman Porno” chegou ao fim quando perdeu mercado para os vídeos pornográficos. Nos últimos cinco anos, diversos títulos foram redescobertos pela cinefilia e entraram na programação de festivais importantes. Em 2016, o Nikkatsu retomou a produção de novos filmes do gênero. A retrospectiva do Festival do Rio traz uma seleção de títulos consagrados e alguns da nova fase. É um dos programas mais interessantes desta edição.

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