Um Boyhood entre duas guerras

Richard Linklater é o cineasta americano da passagem do tempo. Certa vez fiz um trocadilho com o seu sobrenome, apontando seu gosto por retomar personagens em épocas diferentes de suas vidas (link later). Isso aconteceu primeiro na série Antes do…; em seguida dentro de um único filme (Boyhood); depois de maneira mais dissimulada entre Jovens Loucos e Rebeldes (1993) e Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (2016). Em A MELHOR ESCOLHA (Last Flag Flying), esse padrão narrativo se estabelece entre o passado dos personagens, apenas evocado em conversas, e o seu reencontro três décadas depois.

De certa forma, é uma espécie de boyhood  que se instala entre o barman Sal (Bryan Cranston), o Reverendo Richard Mueller (Laurence Fishburne) e o burocrata Larry (Steve Carell), todos veteranos do Vietnã, quando voltam a se reunir para o funeral do filho do último, morto na guerra do Iraque. O quanto cresceram e como cresceram, eis a questão. Em que se transformaram ou tentaram se transformar. A força da camaraderie se impõe sobre a tristeza do momento, fazendo o filme oscilar entre o drama do luto e a comédia de contrastes entre personalidades diferentes. Por sua vez, a ironia com os rituais e formalidades do Exército americano, essa indústria de heróis de pés de barro, acaba sendo subjugada por uma espécie de civismo em tom menor, mais ligado aos sentimentos humanos que ao patriotismo. Não deixa de ser uma forma de conciliar a irreverência com uma medida de respeito às convenções.

Linklater faz um link também entre a guerra do Vietnã, onde os três amigos combateram juntos e acumularam algumas culpas, e a guerra do Iraque, que assistem à distância. Ontem como hoje, a alienação e um sentido abstrato de dever prevalecem sobre qualquer compreensão real do sentido das guerras. É o marrento Sal quem profere a melhor frase do filme: “Nós somos o único país que ocupa outro país e espera que gostem de nós”.

Os diálogos dominam toda a ação e são quase sempre inteligentes e divertidos. O elenco carrega o filme nas costas, constringindo Carell num papel introspectivo e liberando Cranston para uma performance exuberante. Não é um Linklater excepcional, mas está longe de ser desinteressante.

2 comentários sobre “Um Boyhood entre duas guerras

  1. Gostei demais do vídeo de Mostar, que além do mais histórico.Acho tão bom ir por lugares que nunca passei nem passarei, com vc e Rosane! Obrigada.
    E concordei totalmente com o filme dos veteranos do Vietnã!

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