Western fratricida em Moçambique

Dois anos depois de se tornar independente, Moçambique passou por uma longa guerra civil (1977-1992) que ceifou 1 milhão de vidas e provocou o deslocamento de 5 milhões de civis. Os militares, a serviço da Frelimo, defendiam o novo regime contra a guerrilha anticomunista. Vários filmes já foram feitos sobre esse assunto, mas COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR o enfoca por um recorte diferenciado.

O brasileiro Licínio Azevedo, radicado em Maputo desde a década de 1970, baseou-se no seu livro homônimo para descrever um conflito vivido no mesmo lado, entre elementos das forças governamentais. Um trem parte carregando sal para trocar por açúcar com o Malawi, numa ferrovia pontuada por emboscadas dos rebeldes. Além do carregamento, viajam também mulheres, crianças e civis, de diferentes crenças e religiões.

Como sempre faz em seus filmes (na maioria, documentários mesclados à ficção), Licínio trata da interação entre a vida bruta dos moçambicanos e suas ligações com o sobrenatural. Mais que o inimigo, o medo é o grande vilão a combater. Amuletos e referências a feiticeiros e bruxarias convivem com questões mais concretas, como as estratégias de sobrevivência aos tiros da guerrilha e à falta de água e alimentos durante a viagem.

O que se vê das janelas do trem é um país devastado não só pela miséria e a guerra, mas também pela violência machista e as disputas de poder, mesmo numa esfera modesta como um trem. Nesse contexto é que eclode a conflagração central: uma bela enfermeira é alvo do interesse de um tenente de boa índole e de um alferes inescrupuloso e estuprador. Esse plot vai aos poucos tomando a forma de um western fratricida, que mostra como as tensões da guerra atingiam não apenas os inimigos formais.

Já são bem conhecidos os “milagres” que Licínio Azevedo consegue operar com a produção e o elenco num país que nunca conseguiu profissionalizar seu cinema. Mas o que ele obtém em COMBOIO é uma verdadeira façanha na dimensão do épico. Atores e figurantes atuam com excelência, a fotografia do francês Fréderic Serve e a montagem do brasileiro Willem Dias dão grandeza e ritmo a um filme que, apesar da narrativa confusa em alguns poucos trechos, não é menos que admirável. E admirável também é a iniciativa de Cavi Borges e sua Livres Filmes ao distribuir esse longa no Brasil.

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