Quem tem medo da Lua cheia?

Um gato, um revólver, uma caixinha de música, pacotes de carne crua na geladeira. Logo na primeira sequência de AS BOAS MANEIRAS, Marco Dutra e Juliana Rojas semeiam os índices de mais esse ensaio da dupla no gênero do horror. Para mim, é o seu melhor, superando a rigidez e as falhas de progressão dramática que impediam “Trabalhar Cansa” e “Quando Eu Era Vivo” (este dirigido só por Marco) de alcançarem a eficácia pretendida.

Em AS BOAS MANEIRAS, o clima de inquietação evolui adequadamente para criar a melhor história de lobisomem já experimentada no cinema brasileiro. Ao mesmo tempo, é um filme sobre o amor materno, seja ele genético ou vicário. Do lado de Ana, a patricinha caipira vivida com minúcias arrepiantes por Marjorie Estiano, estão os efeitos de uma gravidez excepcional e de uma contaminação macabra, que racha sua personalidade entre o sonho e a vigília. Da parte de Clara (a afrolusitana Isabél Zuaa), enfermeira contratada como futura babá, tem-se uma transformação profunda a partir de um compromisso maternal assumido por vínculo de afeto.

Intrigante nos seus desdobramentos, o filme conserva um lirismo absurdo por baixo da superfície sanguinolenta, fator que distingue as melhores obras no gênero.

O artificialismo da cenografia – uma São Paulo dubaiana, interiores dominados por azuis irônicos – e das imprevisíveis interações entre Ana e Clara produz uma atmosfera incômoda, a meio caminho entre o prosaico e o sobrenatural. Graças à coprodução com a França, reuniram-se talentos brasileiros e franceses para conceber efeitos visuais de qualidade inédita entre nós, especialmente no que diz respeito à criatura fantástica que irrompe a certa altura. Por fim, o surgimento de canções de ninar em momentos pouco ortodoxos completa a personalidade marcante do filme. E também o encaixa num filão paulista de quase-musicais como Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, e O que se Move, de Caetano Gotardo, montador de AS BOAS MANEIRAS, todos integrantes do grupo Filmes do Caixote.

Entre os muitos prêmios e menções especiais já conquistados estão os dos festivais do Rio, Locarno, Turim, Sitges, Austin, Oslo, Buenos Aires e Biarritz. Reconhecimento de um trabalho que se ombreia com os melhores de sua vertente no circuito internacional.

3 comentários sobre “Quem tem medo da Lua cheia?

  1. Certíssimo tudo o que você escreveu. Eu geralmente me incomodo em ver um Brasil cenográfico como vejo nesse filme – e até estava incomodado no início. Mas ele serve um propósito. E resolve melhor do que o Toro, que, se não me engano, abusou do verde em The shape of water.
    Eu não conheço o trabalho da dupla mas o problema do Toro é que ele foi “formulaic” no shape. E logicamente catou o prêmio . Sua obra prima é, pra mim, ainda o Pan’s labyrinth. Você não sabe pra onde vai a história.

    E é exatamente o que acontece em as boas maneiras. É um filme que tem o roteiro em forma “jornada”, como eu chamo e a forma que eu mais gosto. Eu vou pegar a Clara num ponto da vida dela e deixá-la em outro. A intenção é o caminho de Clara do ponto A ao ponto B, a razão da história ser contada.
    A atriz que interpreta Clara é posta( pedida a interpretar) de tal maneira na primeira parte do filme( Clara empregada)que nos deixa equivocados à espera de uma personagem estranhamente sinistra. É genial, porque lendo tua resenha há pouco, eu me imagino ela, que vem de outra escola de interpretação, à vontade para mirar( stare) num olhar que não conhecemos. Daí a sinistralidade . Ela não é nenhuma das empregadas de “domesticas” do Meirelles. O que nos obriga a repudiá-la. E isso é originalíssimo no filme. Quem interpreta a personagem que conseguimos codificar como “patroa super bacana” é a Marjorie Estiano, que na contraposição a Clara, estranhamente começa a nos parecer sinistra mais do que a empregada( aquela história da “cordialidade “ do FHC).

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