Itinerário das ruínas

Paulo Lima resenha OS SONÂMBULOS, exibido no Festival de Brasília 

por Paulo Lima

A filmografia dedicada ao cinema político brasileiro cobre um amplo espectro de temas explorados, em sua maioria, numa chave que costuma reunir o jornalístico, o histórico e o sociológico como instrumento de análise. Aí se incluem cinebiografias, documentários e ficções que têm contribuído para aclarar os meandros muitas vezes inexplorados de nosso conturbado processo histórico.

Mas talvez nenhum filme tenha privilegiado, enquanto substrato narrativo, uma gramática subjetiva da ação política como OS SONÂMBULOS, ficção do diretor mineiro Tiago Mata Machado. O longa-metragem, concluído este ano, foi exibido na Mostra Caleidoscópio do Festival de Brasília.

Esta é a terceira incursão do diretor no longa-metragem. Em 2010, seu filme OS RESIDENTES percorreu circuitos nacionais e internacionais, tendo estreado no Festival de Brasília daquele ano. Nesse trabalho, Tiago propunha uma reflexão em torno das vanguardas artísticas e o “beco sem saída” da arte contemporânea.

Em seu novo trabalho, o objeto é o “beco sem saída” político em que nos metemos. Ambos os filmes fazem parte do que vem a se tornar uma trilogia. Este projeto foi revelado pelo diretor no debate que se realizou após a reexibição da película no Museu Nacional de Brasília.

O fio principal das várias meadas que compõem OS SONÂMBULOS é determinado pelas ações de um grupo de revolucionários que opera como metáfora, ou microcosmo, de uma nação que tem “um longo passado pela frente”. Seu leitmotiv, portanto, é a mudança política. Segundo explicações do Tiago, no debate acima citado, as primeiras ideias do roteiro foram elaboradas em 2014. O acirramento da polarização política com o impeachment de 2016 injetou novas reflexões à proposta inicial. O que seria um filme unicamente sobre a violência da extrema-esquerda acabou formando uma curva, chegando à extrema-direita.

Movendo-se num permanente ambiente “trevoso”, de sombras – sintomaticamente, a luz do dia jamais é vista, e as cenas, em sua maior parte, são registradas em interiores e normalmente à noite -, o grupo se debate no interior do que pode ser sugerido como um “aparelho”, o que nos remete à atmosfera das resistências revolucionárias, incluindo a militância contra a ditadura de 1964.
Nesse clima sufocante, os afetos de medo e esperança vêm à tona, eviscerados em extensas discussões que evidenciam o cerne do enrosco político atual, com a implantação de um Estado de exceção permanente. O fascismo surge no monólogo de um dos personagens como uma força naturalizada na sociedade brasileira. A energia inicial do grupo, impulsionada inicialmente pelas possibilidades da ação política, se esvai. Acabamos vencidos pela inércia, voltando sempre ao ponto de origem, vivendo como sonâmbulos.

Segundo Tiago Mata Machado, no debate já referido, o filme parte de ideias e seu objetivo é realizar uma investigação moral sobre a política. São muitas as referências intelectuais de várias ordens que o atravessam, desde as teses de Giorgio Agamben sobre o Estado de exceção e o conceito benjaminiano de ruínas, passando pela literatura de Dostoiévski e de Hermann Broch, notadamente sua trilogia Os Sonâmbulos, que inspirou o título do filme.

Mas o que também torna OS SONÂMBULOS um filme excepcional é sua textura que imbrica várias linguagens, que vão da instalação à colagem, potencializadas por um desenho sonoro perturbador. Tudo ali é permeado pela sobreposição de tempos e camadas subjetivantes que desafiam nossa percepção. A atuação do elenco é magistral, com destaque para a interpretação da experiente atriz Clara Choveaux.

Muito ainda se deve falar desse filme, um retrato potente e desesperançado destes tempos sombrios e seus destroços.

Paulo Lima

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