Emilia e sua “Torre”

Torre das Donzelas ganhou o Prêmio Especial do Júri no 51º Festival de Brasília, encerrado ontem. A documentarista Emilia Silveira, presa política durante o regime militar, comenta nesse texto como reconheceu a sua própria experiência no filme de Susanna Lira.

Algumas palavras sobre a “Torre”

por Emilia Silveira

Aqui no Festival de Brasília um dos meus maiores interesses era assistir ao filme “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira.
Um filme importante nesse momento e mais uma fonte à disposição da sociedade para impedir que a memória se apague.
Mas estou aqui para falar de outra coisa. Para falar dos detalhes, do que é particular, pessoal. Para falar dos gestos mínimos que são capazes de nos transportar para além do que está dito. Que nos pegam no contratempo.

Dia 16 de setembro. Duas da tarde. Museu Nacional de Brasília.
Começa a segunda sessão da “Torre”.
A ex-guerrilheira Dulce Maia, uma mulher altiva, entra no cenário que recria uma cela coletiva feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Vamos para o final da década de 1960, auge da ditadura civil-militar no Brasil. Mais de 20 mulheres estão no filme. Uma a uma, elas ocupam aquele espaço de representação. Lembram o que dá pra lembrar. Provocam uma certa ternura.

Daí em diante eu começo a ver “o meu próprio filme” em cada detalhe que chega da tela.
Penso: com disciplina e uma dose de loucura conseguimos fazer do cárcere uma possibilidade de aprimoramento pessoal. Lembro: tínhamos horário para tudo. Uma rotina rígida. Uma solidariedade sem limites. Aprendemos a compartilhar. A não brigar por migalhas. A dividir as tarefas: lavar o banheiro comum, limpar tudo, conservar as celas, matar as baratas, afastar os ratos com latinhas de água enfiadas nos pés das camas beliche, abstrair o frio e o calor. E Bangu, onde ficava o Talavera Bruce – presídio feminino do Rio –, batia  a máxima no verão e a mínina no inverno.
Nunca consegui me lembrar se fazia frio ou calor. O conforto pessoal não era uma questão. A prisão é o território do não humano.
Um dia, deitada na cama, olhei para os meus pés e me achei muito jovem para estar ali. Imediatamente vi que sentimentos como esse precisavam ser evitados a qualquer custo. Mas quem conseguia?
Ah! Construir uma rede de vôlei de crochê, fazer ginástica, discutir política, estudar Filosofia, escrever cartas para os namorados, que muitas vezes não chegavam, ficar feliz porque vai sair do pavilhão só para ir ao prédio principal. Ler, ler, ler.
Ao caminhar no corredor de 30 celas depois do jantar, pensar que estava acostumada àquela vida e que aguentaria viver ali para sempre.
Gostei de saber como o dia a dia das presas políticas, em São Paulo, era semelhante ao nosso, das presas do Rio. E como existia uma mesma forma de ativar mecanismos para enfrentar aquilo.
Chorei muito no fim do filme. Por quê? Por mim, por elas?

Já no hotel, pensei: quando um filme consegue transportar o espectador para o seu próprio mundo, acho que ele cumpriu a sua função. Para que mais fazemos filmes se não para misturar, confundir, aproximar cinema e vida? Vida e cinema?

Parabéns, Susanna.

Emilia Silveira

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