Cavídeo no Ricamar e a “Cidade Invisível”

Atenção, atenção! Em mais uma ação de emergência cultural na cidade do Rio de Janeiro, a Cavídeo ocupa o Cineclube Ricamar a partir desta segunda-feira com uma série de filmes, debates e eventos. Na estreia, às 19 horas, vai rolar a pré-estreia do documentário CIDADE INVISÍVEL, de Terêncio Porto, coproduzido e distribuído por Cavi Borges, o Roger Corman do Humaitá.

A ocupação Cavídeo chegou em boa hora para dar uma sobrevida ao cineclube criado em abril por Roberval Duarte, a Associação Cultural Mundo Brasil e a Cidadela – Arte, Cultura e Cidadania. A Sala Municipal Baden Powell, ex-cine Ricamar, vinha acolhendo sessões semanais de clássicos do cinema brasileiro e internacional, filmes ligados a questões sociais e sessões de homenagens a gente como Haroldo Costa, Silvia Oroz e Silvio Tendler. Com a manutenção do cineclube se mostrando ultimamente inviável, Cavi foi convidado a ocupar o espaço.

CIDADE INVISÍVEL é uma escolha perfeita para inaugurar essa ocupação tipicamente carioca. Até porque a meta do filme de Terêncio Porto é justamente pôr em xeque alguns mitos da cidade e da tal carioquice.

Mania de nobreza

O realizador parte da comemoração, incentivada pela prefeitura em 2008, dos 200 anos da vinda da Família Real portuguesa para o Rio de Janeiro. Entrevistando personagens de distintas latitudes geográficas e sociais da cidade, ele investiga os ecos de uma mania de nobreza que se manifesta hoje na aristocracia das áreas VIPs e dos condomínios de suposto luxo, assim como no deslumbramento acrítico com a beleza natural.

O corte é sociológico. Temos Dona Fátima, moradora (“não sei se é posse ou ocupação”) de um casarão degradado na Lapa onde no passado moraram membros da família Bragança. De outro lado, vemos o apresentador de TV Daniel Sabbá desfilar sua farfalhante concepção do que é ser um “nobre” hoje no Rio. Uma consultora imobiliária exalta as maravilhas de um condomínio na Barra sem conseguir esconder sua descrença em tudo o que está falando.

Há ainda o biólogo Mario Moscatelli expondo sem papas na língua as vísceras das lagoas de Jacarepaguá, um choque de realidade frente à “Disneylandia” dos bairros afluentes da Zona Oeste. “Seu” Lázaro, português que labuta no mercado do Cadeg, conta como virou “um carioca”. Já Sérgio Eleotério, morador de favela, não se cansa de louvar “a cidade mais linda do mundo” e menosprezar as desigualdades sociais de que é vítima.

Ao fim e ao cabo, entre personagens característicos e comentadores mais intelectualizados, CIDADE INVISÍVEL fornece um instantâneo das contradições que cercam a “Cidade Maravilhosa”. Um lugar originado na pilhagem em busca do lucro fácil e dos privilégios, mas que se escora na vaidade de quem é “bonito por natureza”. A muitas milhas da visão oba-oba do Rio, o filme traz um pequeno painel dialético onde a antiga capital do império, definitivamente, não sai bem na foto.

Da relação com Portugal, que está na base da argumentação, resta a tristeza profunda deixada pelo desaparecimento do Museu Nacional. Os cariocas, em sua maioria, não têm ideia do quanto ficaram mais pobres.

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