Festival do Rio: Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS começa e termina com o jovem Ihjãc Krahô diante de uma grande cachoeira, onde acredita ouvir a voz do pai há muito já morto. O espírito do pai cobra do filho o ritual do fim do luto para que ele possa enfim seguir rumo ao reino dos mortos, e os vivos possam se libertar de sua memória. Esse é o ponto de conflito para Ijhãc. Ele teme se envolver com as entidades da floresta, pois sabe que está destinado a se tornar um xamã. Atribui a isso os sonhos e as dores que sente. Prefere ficar à margem desse mundo espiritual, e para isso resolve procurar um médico na cidade mais próxima.

Esse particularíssimo filme do casal João Salaviza (português) e Renée Nader Messora (brasileira), vencedor do Prêmio do Júri da mostra Um Certo Olhar, no último Festival de Cannes, enfoca um tipo de vida híbrido de indígenas aculturados, a meio caminho entre a cultura original e a adquirida dos não índios. Em sua aldeia Pedra Branca, no Tocantins, Ihjãc é um pacato pai de família. Na cidade sertaneja de Itacajá, onde se hospeda numa Casa de Apoio para índios, ele curte jogos eletrônicos e música moderna como qualquer jovem local. Sua mulher, Kotô Krahô, joga futebol, pinta as unhas e participa de conversas de namoro com as amigas.

A partir de uma já longa convivência com os Krahô, Renée concebeu a história ficcional desempenhada por Ihjãc, Kotô e seus entes próximos, num modelo que difere muito do praticado por Vincent Carelli e seus discípulos. Renée e João dividiram quase todas as funções técnicas e de concepção, cabendo aos índios interpretarem seus papéis como atores. Naturalmente, sendo a trama baseada em conversas e casos reais da tribo, a ficção guarda relação íntima com a realidade vivida por eles. O balanço entre o projeto de dramaturgia vindo “de fora” e a contribuição legítima dos “de dentro” gera um formato peculiar. O “contrato” estabelecido entre as duas partes permite chegar bem perto de uma expressão autóctone, como na bela sequência em que o casal conversa aos cochichos enquanto seu filhinho dorme no meio.

Enquanto na aldeia o ritmo é lento e as imagens são fixas e extremamente bem compostas, com uma visão da natureza que lembra os pintores viajantes no Brasil do século XVI, as cenas da cidade ganham contornos mais informais e de aparência documental. Vez por outra, uma coloração sobrenatural tinge o quadro para demarcar o dilema de Ihjãc entre o chamado da floresta e a recusa somatizada no corpo – o que uma médica da cidade diagnostica como hipocondria.

Embora diretores e atores tenham protagonizado um protesto pela demarcação das terras indígenas quando da passagem do filme por Cannes, A CHUVA É CANTORIA… coloca a política apenas em filigrana. Somente duas menções aludem ao massacre perpetrado por fazendeiros em 1940 e a uma placa de demarcação atingida por tiros. De resto, é um filme centrado na cisão da consciência e do imaginário indígenas.

Faz uma espécie de contraponto a Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, retrato de um índio idoso que, diante da decadência de sua função na tribo, cooptou com a religião evangélica. Ihjãc, o futuro pajé de A CHUVA É CANTORIA…, parece tentar escapar mais cedo ao mesmo destino. No conto idealizado por João e Renée, ele levará esse impasse a um extremo na cachoeira mágica.

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