Vestidões, ácido e veneno

A FAVORITA

É muito interessante ver o diretor grego Yorgos Lanthimos aplicar seu gosto pelo bizarro a um filme de época, com vestidões, cenografia barroca e corrida de patos. A FAVORITA parece uma produção da BBC que tomou ácido e destilou veneno.

Mesmo longe da fábula comportamental de A Lagosta ou da trama de vingança sobrenatural de O Sacrifício do Cervo Sagrado, longas chegados ao absurdo, o diretor mantém-se fiel a uma gramática peculiar. As lentes distorcem violentamente os cenários, a câmera está quase sempre em contraplongé (enquadrando as pessoas de baixo para cima) ou deslizando veloz através de corredores, imagens se fundem em lógica alucinatória. Lanthimos é um cineasta basicamente retórico.

Mas, ao contrário dos filmes anteriores, as interpretações trocam a rigidez robotizada por uma adesão mais vivaz às personagens. Olivia Colman brilha como a Rainha Anne, retratada pelo lado menos elogioso de sua biografia. À beira da demência e sofrendo de gota, obrigada a decidir se a Grã-Bretanha entra em guerra com a França, a soberana deixa-se manipular abertamente por Sarah Churchill (Rachel Weisz), sua dama de companhia favorita, com quem divide segredos e cama. A chegada de uma nova empregada, Abigail (Emma Stone), prima de Sarah, vai ocasionar uma ferrenha disputa entre as duas mulheres pelos favores da rainha, sinônimo de poder. Abigail almeja voltar a suas raízes reconquistando aos tapas um lugar na realeza.

A FAVORITA põe em cena a História como farsa e como intriga palaciana. Não faltam “aristocaricatos” e vinhetas satíricas sobre os costumes da corte. Yorgos Lanthimos e seus roteiristas (Deborah Davis e Tony McNamara) devem ter se sentido muito à vontade para ficcionalizar um reinado curto (1702 a 1714), mas que deu muito material para os fofoqueiros da época.

Para não deixar de lado suas constantes metáforas animais, Lanthimos escalou 17 coelhos para simbolizarem os 17 abortos sofridos pela Rainha Anne. O resto é uma divertida extravagância histórica.

3 comentários sobre “Vestidões, ácido e veneno

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