Bahia Bethânia, Maria Mangueira

FEVEREIROS

“Sua voz sempre foi assim peculiar, com tons de cobre e de água marinha”, diz Caetano a respeito da irmã logo na segunda cena de FEVEREIROS. Esse filme de Marcio Debellian não foge ao modelo do doc-exaltação, aquele que se empenha em tornar sua personagem algo de muito especial, não pertencente à ordem das pessoas comuns. É claro que Maria Bethânia não é uma pessoa comum. Mesmo nas situações mais corriqueiras, ela exala uma serenidade sábia e uma solenidade doce. Daí que FEVEREIROS tira partido dessa doçura para evitar maiores grandiloquências.

Debellian dirigiu um dos melhores entre os vários docs envolvendo Bethânia: (o vento lá fora), em que ela e a professora Cleonice Berardinelli simplesmente liam e comentavam poemas de Fernando Pessoa. FEVEREIROS é bem mais pessoal. Ainda assim, reforça a noção de que essa Maria se presta a muitas abordagens para além do universo musical. O diretor e a corroteirista e montadora Diana Vasconcelos construíram uma ponte entre o carnaval carioca de 2016, vencido pela Mangueira com um enredo sobre Bethânia, e a devoção que leva a cantora todos os anos, no mês de fevereiro, a Santo Amaro da Purificação.

A ponte procura ligar também a música (incluindo o samba) à religiosidade, conforme parecem indiscerníveis no imaginário de Bethânia e na própria formação de sua família. A partir de histórias dos Veloso e de sua relação com a cidade baiana em que todos nasceram, abre-se um leque de considerações de cunho etnográfico.

Por um lado, vemos como os Veloso se tornaram ícones vivos, plenamente incorporados à mitologia religiosa de Santo Amaro. Por outro, descortina-se um saboroso retrato das imponderabilidades da fé no Brasil, sobretudo na Bahia. Lá estão o fervor sincretista de Bethânia entre Maria e Iansã, o candomblé de caboclo afro-indígena, o “meio-ateísmo” candomblecista de Caetano, o materialismo que já viu milagres de Jorge Amado (em cenas de arquivo).

Os signos do medo e da proteção são invocados com frequência, indicando que a devoção sincera convive com uma visão um tanto utilitária da fé religiosa. A simpatia e a candura inteligente dos Veloso – extensivas à historiadora Mabel, a irmã que não saiu da Bahia – tornam tudo suave e caloroso como uma conversa de varanda ao fim da tarde.

Forçosamente, o material baiano é muito mais rico do que o carioca, até porque a preparação do carnaval bethânico da Mangueira é mostrada com superficialidade, a não ser por declarações do carnavalesco Leandro Vieira. Tanto as imagens de festas e procissões em Santo Amaro, quanto as do desfile no Sambódromo impressionam pela beleza cenográfica e de filmagem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s