Os corpos e as vozes

SETE ANOS EM MAIO e VAGA CARNE são lançados online

Dois médias-metragens brasileiros que estavam prestes a chegar ao cinema em programa duplo são lançados agora na internet. SETE ANOS EM MAIO e VAGA CARNE trazem marcas do cinema mineiro contemporâneo, como a mescla de linguagens e uma certa visceralidade na abordagem dos temas. Mas são, em tudo por tudo, muito diferentes.

“Sete Anos em Maio”

Em SETE ANOS EM MAIO, Affonso Uchôa trabalha novamente com atores naturais, como já havia feito em A Vizinhança do Tigre e Arábia. Aqui, o protagonista Rafael revive e reconta o episódio real em que foi detido, torturado e barbaramente espancado por policiais sob a acusação de esconder drogas em casa.

O filme transita entre quatro registros diferentes. De uma encenação do momento de sua detenção passamos a um longo relato de Rafael em primeira pessoa e daí para uma conversa roteirizada com outro personagem a respeito da condição de gente da periferia como alvo de violência policial. “Eu já passei por tanta coisa que toda história que eu ouço parece a minha”, diz o interlocutor de Rafael, desenhando a metonímia de toda uma classe. Por fim, uma cena alegórica remete à penosa sobrevivência do personagem.

Apesar do tom lamentoso e de se colocar na posição de vítima, Rafael não dissimula suas atividades no tráfico, no consumo de drogas pesadas e em outras contravenções, assim como suas várias passagens pela cadeia. O que importa, então, não é julgá-lo, mas expor uma ação brutal da polícia, acompanhada inclusive de tentativa de extorsão. Um quadro conhecido, em que o poder da força se torna uma bandidagem como qualquer outra.

“Vaga Carne”

Uma grossa cortina separa o filme de Uchôa de VAGA CARNE, transposição mais ou menos cinematográfica da peça homônima e multipremiada de Grace Passô. Ela própria divide a direção com seu habitual parceiro Ricardo Alves Jr. (Elon Não Acredita na Morte) e encarna uma mulher que tem seu corpo invadido por uma certa voz. Uma voz que se antecipa ao corpo da atriz, abrindo o filme sobre a tela ainda escura.

A proposta é política e metafísica. A voz é uma entidade livre, não corpórea, que invade a matéria e se torna escrava do peso desta. Essa voz, aliás, diz já ter ocupado animais e até caixas de som. Mas ao invadir uma mulher, encontra certa resistência. Dá-se um embate esquizofrênico entre voz e carne, na busca de definir uma identidade e povoar um espaço político reservado às mulheres negras.

A maior atriz brasileira em plena atividade, Grace ocupa literalmente o filme com sua presença magnetizante. Diante de uma pequena plateia simbólica de gente amiga, ela se multiplica em modulações de voz, meneios de corpo e uma montanha russa de intensidades para dar vida a esse insólito duelo. Mesmo que o texto seja difícil e, afinal, um tanto vago demais, a performance de Grace nos arrebata de maneira irrestistível.

Enquanto SETE ANOS EM MAIO é marcado por uma voz que sai de Rafael, VAGA CARNE é a representação de uma voz que entra no corpo de Grace. Os dois filmes estão disponíveis no site da distribuidora Embaúba Filmes. VAGA CARNE está também no SPCine Play.

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