Na estrada dos deserdados

Começo hoje a publicar resenhas de filmes concorrentes ao Oscar que ainda não estão em plataformas de streaming acessíveis no Brasil. 

NOMADLAND

O mito muito americano da estrada como lar aparece com viés melancólico no longa vencedor do último Festival de Veneza e favorito ao Oscar de melhor filme. Nomadland é baseado no livro Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century, de Jessica Bruder, romance-reportagem sobre as comunidades de trabalhadores nômades que se formaram nos EUA a partir da recessão de 2008. São esses mesmos personagens reais que interagem no filme com Frances McDormand e David Strathairn através de acampamentos de trailers e vans nos desertos que cortam os estados de Dakota do Sul, Nevada, Nebraska e Arizona.

A ação se passa em 2011. Frances encarna a viúva Fern (esse é o codinome de estada da própria atriz, adepta dos trailers), que pega a estrada depois que o marido morre e a fábrica onde ela trabalhava é fechada. A quem pergunta se é homeless, ela responde “Não. Sou houseless“. Diferença importante entre casa e lar. A bordo de sua van, estaciona onde lhe permitem e viaja em busca de empregos temporários – ora num centro de empacotamento da Amazon, ora em faxinas ou numa megaplantação de batatas (ou serão beterrabas?). Em cada um desses cenários, Frances atua ao lado de outros trabalhadores reais, num modelo de ficção que pretende absorver o sentido da realidade.

A diretora Chloé Zhao, nascida na China, tem predileção por trabalhar com atores não profissionais, o que não a impediu de aceitar o convite da Marvel para dirigir o vindouro blockbuster Os Eternos. Em Nomadland, ela explora o caráter documental que está na origem do projeto encampado inicialmente por Frances McDormand, também liderando as apostas do Oscar de melhor atriz.

Como Fern, os seus companheiros de estrada são pessoas mais velhas, empobrecidas e abaladas por doenças ou perdas pessoais. Fern, em particular, reboca o peso da memória do marido e de uma vida pregressa que lhe era cara. Na estrada, endureceu a veia romântica e não suporta mais a perspectiva de retomar um cotidiano sedentário. Ainda assim, é uma mulher sensível ao contato humano e desprendida de bens materiais que não possuam valor afetivo. Uma exceção são os pratos decorados que herdou do pai.

Eu me sintonizei com ela, apesar do acesso rarefeito a suas razões e escolhas. O filme nos toca em grande parte pelas interações que Fern estabelece nos encontros, despedidas e reencontros da estrada, bem como na relação dela com a paisagem e com os signos kitsch do Oeste contemporâneo. Uma profunda solidão habita aqueles grandes espaços, povoados por uma geração de americanos que caiu no conto do neoliberalismo.

Chloé Zhao estudou Ciência Política, foi aluna de Spike Lee em Los Angeles e nutre grande admiração pelo cinema de Terrence Malick. Disso tudo talvez resulte o mix de mirada política e interesse humanístico presente em Nomadland.

Um comentário sobre “Na estrada dos deserdados

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