O Judas, o Messias e os 7 de Chicago

Prosseguindo com os filmes concorrentes ao Oscar, comento JUDAS E O MESSIAS NEGRO e OS 7 DE CHICAGO, cujos enredos se entrecruzam brevemente. O primeiro ainda não está em streaming brasileiro. O segundo está na Netflix.  

Infiltração premiada

Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah) é Infiltrado na Klan com os sinais trocados. Deve ter horrorizado os conservadores americanos. Imaginem santificar o marrento Fred Hampton, líder dos Panteras Negras em Chicago, depois de ele pregar a revolução e o extermínio de todos os “porcos” (polícia e FBI), com citações a Guevara e Mao Tsé-Tung.

Judas combina bem o retrato íntimo de Fred (Daniel Kaluuya) e seus companheiros mais próximos – especialmente a união com Deborah – com o thriller policial. Chairman Fred conduz Os Panteras Negras na construção da Rainbow Coalition, unindo-se com os Crowns (que davam proteção a Luther King) e até com um grupo de resistência do “white trash”. Oferecendo café da manhã grátis e prometendo saúde e educação para o povo, ele aponta nas armas o caminho para a libertação dos oprimidos.

Em paralelo, vemos a ação de Billy O’Neal (LaKeith Stanfield), criminoso que usava um distintivo falso do FBI para roubar carros. Preso, ele troca a prisão pelo papel de informante do FBI entre os Panteras Negras. O filme falha em não mostrar como ele conseguiu se infiltrar, mas pontua bem sua canalhice na função de motorista e segurança de Fred. Uma sombra de simpatia pessoal germina nele, mas não o impede de ir em frente até o desenlace fatal.

As estratégias do FBI, que incluem provocar a morte de um falso espião para reforçar a performance do espião real, fazem de Hoover e sua equipe um poço de cinismo e truculência. O agente Roy Mitchell, que faz o acordo com Billy e sofre a pressão de Hoover, é mais uma peça nessa engrenagem. Entre Billy e Mitchell se estabelece um jogo de extorsão e chantagem.

O elenco faz toda a diferença (destaque-se também Dominique Fishback no papel de Deborah). A fotografia e a direção de arte remetem à tradição dos filmes modernos de gangsteres, com muitas cenas noturnas. Afora uma certa tendência a solenizar os diálogos, Shaka King assina uma direção impecável. No final do filme, aparecem os personagens reais, inclusive um trecho da entrevista de Billy O’Neal em 1989, na qual ele parece sem remorsos e dizendo que fez o que tinha que fazer. No entanto, dois dias depois, morreu atropelado em aparente suicídio.



Militantes e doidões

Durante a primeira meia hora de Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago Seven), fiquei me perguntando que interesse teria pelo julgamento daqueles sete ativistas presos numa manifestação contra a Guerra do Vietnã durante a convenção do Partido Democrata em 1968. Apesar da presença tangencial de um membro dos Panteras Negras (que faz o filme cruzar com Judas e o Messias Negro através da figura de Fred Hampton), não via universalidade na questão dos militantes estudantis e dos doidões Yippies que levaram porrada da polícia e ainda estavam a ponto de ser condenados à prisão.

Ainda por cima, era mais um filme de tribunal, baseado em diálogos e discussões incessantes, em que a retórica normalmente conta mais que qualquer outra coisa. Aos poucos, porém, fui sendo conquistado não tanto pela história, mas pela forma de contá-la. Das seis indicações ao Oscar recebidas pelo filme de Aaron Sorkin, só duas me pareceram absolutamente justas: roteiro e montagem. É prodigiosa a forma como as várias camadas narrativas se interpolam sem jamais perderem a clareza e conferindo uma dinâmica avassaladora.

O tribunal é o centro nervoso, mas os fatos reverberam em flashbacks às vezes intercalados velozmente com a ação da corte e ainda com uma performance de stand up de Abbie Hoffman (Sacha Baron Coen). A reconstituição da manifestação no Grant Park é habilmente conectada com cenas de arquivo do episódio, surtindo um forte efeito de realidade.

Por fim, há o humor das caracterizações dos Yippies e do juiz (Frank Langella) que preside o julgamento como um refém do comportamento dos réus. Na última meia hora, eu já estava completamente abduzido pela palpitação do filme e pela atuação do elenco, o maior vencedor da batalha.

>> Os 7 de Chicago está na Netflix          

 

Um comentário sobre “O Judas, o Messias e os 7 de Chicago

  1. Pingback: Todas as minhas resenhas do Oscar | carmattos

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