Japonês, libanês

Diante de tão cerrada unanimidade elogiosa ao japonês oscarizado A Partida, acho que estou precisando de um psicanalista, padre ou pastor. Gente, que desapontamento! Esse é o filme mais “mensageiro” dos últimos tempos. E tudo vem sublinhado com obviedades reiteradas à exaustão, alternâncias de alegria e tristeza que parecem saídas de um manual de roteiro para principiantes, e mais aquele violoncelo pavoroso tentando arrancar lágrimas a todo custo.

Tudo bem, o filme tem a coragem de tratar a morte de frente – assim como a câmera enquadra rostos de “cadáveres” em closes frontais. Mas o acúmulo de “lições de vida”, telegrafadas e repetidas para não deixar dúvidas, foi de amargar. Saí do cinema sem nada para completar, deduzir ou refletir.

Será que estou sozinho nessa decepção? Será que devo procurar algum tipo de ajuda?

Nadine Labaki
Nadine Labaki

Apesar de outros tantos defeitos, apreciei mais Caramelo. O roteiro também é pastoso aqui e ali, o adocicado às vezes exagera na medida. Mas pelo menos tem o Líbano na tela, o que é raro, visto através de temas “ousados” como homossexualidade, adultério, menopausa. E tem uma mulher linda no papel central, Nadine Labaki (sua parenta, Amir?). Ela é também a diretora. É uma estrela do audiovisual libanês. Dirige videoclipes e faz anúncios da Coca-Cola Light. Quase uma deusa.

13 comentários sobre “Japonês, libanês

  1. Mas sua cotação para “Há tanto tempo…” foi a mesma de “A Partida”. E no que a gente sabe que a personagem exercia a medicina, já dava para desconfiar mais e ter menos curiosidade. O melodrama me pareceu mal-disfarçado (meio envergonhado) mas ruim de doer, com muita desgraça junta. Que fazer? Tinha que ser sincero. Galhofa? Nem tanto: ironia, sarcasmo, vá lá: me pareceu que o filme merecia ironia pois me soou ridículo e tão ruim quanto – até mesmo pior do que – “A Partida”. Para falar mais honestamente ainda: me soou mórbido e fake, do tipo que faz mal à alma. A mim me fez mal pelo menos.

  2. Feliz é você, Carlinhos, que a cada dia descobre mais gente que não se deixou levar pelA Partida. Eu, pelo meu lado, quase apanho por dizer que o filme manipula (as pesoas têm dificuldade de admitir que foram manipuladas). Pior vem sendo o caso de “Há quanto tempo que te amo”: em 24horas já fui quase ofendido por ter escrito a resenha que está no criticos.com.br. Eu não me incomodo com melodramas, gosto muitoi até. Mas no cinema não gosto de perceber as cordinhas das marionetes. Aí, fico fulo. Suspensão da descreença, sim; crença absoluta, nem em papai-do-céu !

    • Também não concordei muito com sua crítica do “Há tanto tempo que te amo”. Principalmente com o tom meio galhofeiro do texto. Acho que o filme cria um dispositivo narrativo interessante: faz os coadjuvantes replicarem a curiosidade e o desejo de punir do espectador em relação à personagem “misteriosa”. Mas as soluções melodramáticas de fato reduzem o apelo do roteiro, o que é uma pena. Ah sim, e gosto mais da Elsa Zylberstein (afora aquela explosão sobre Dostoievsky, claro) que da Kristin Scott Thomas.

  3. Carlinhos, fui ver o filme japonês na ilusão de que era um grande filme. Estava em Tribeca esse ano ao lado de duas importantes programadoras de festivais internacionais e elas eram só elogios. Emocionadíssimas… No domingo, finalmente consegui ver. Fiquei tão irritada quanto você e com vontade de dizer “agora entendi porque ganhou o oscar”.(com preconceito mesmo) Melô puro. abraços, l

    • Salve, Lucia. A cada dia descubro mais gente que não se deixou enganar por esse “hit internacional”. Que bom te ver por aqui. Beijos.

  4. Confesso que amei o filme mesmo com todos os cliches de que voce fala. Imagino que um filme bom para voce envolva ltoda uma teoria de tecnicas, iluminacão e sei lá mais o que. Pra mim, filme bom é o que toca o coracão, e êsse tocou.

    • Oi Mery, aqui não se trata de técnica nem teoria. O filme não me agradou pela forma como explicita seus mecanismos de provocar emoção. Tudo me soou muito apelativo. Nada contra a emoção no cinema, mas quando as intenções ficam tão explícitas e reiteradas, a coisa funciona ao contrário. Mas respeito sua relação intensa com o filme e agradeço a visita ao meu blog. Um abraço.

  5. Carlinhos,
    Fui assistir Caramelo ontem e gostei muito.
    Singelo e doce como um… caramelo.
    E também uma pequena aula de “história da cultura”, se é que isso existe.
    Coloquei um post no Blog do Corsário.

  6. Carlinhos: se vc for procurar psicanalista por não ter curtido “A Partida”, não me procure: odiei a música reiterativa (sem coragem de usar o violoncelo solo , tem que colocar um pianinho prá tudo ficar melosinho). A suposta
    “poesia” do filme é brega com recursos de roteiro à americana (tem todas as voltinhas das fórmulas dos manuais de roteiro) e é só aparentemente “ousado” por tocar na morte, no corpo morto, nos orifícios mortos… mas é por isso mesmo que está conquistando (foi aplaudido pelo público do Estação na sessão de estréia sexta-feira à noite!) Conquista porque as pessoas projetam o que já viveram nesse terreno de mortes e perdas. Engana com uma suposta “mensagem” que é vazia, um “suposto saber” que está (estaria) nas “mensagens” das pedras – pedras que eu vi como um signifcante vazio, um clichê que serve a uma supodta “elaboração” da mágoa do filho com o pai abandonante (o pai teria sido uma espécie de “Laio” que some em vez de mandar dar sumiço ao filho Édipo). E o filho surge como um “édipo” já castrado (que não pode mais usar a “vara” do violoncelo) e que adere à
    necrofilia. Ou morbidez enfeitada! O filme é feito de vazios que ganharão os significados que cada um da platéia queira dar (mulheres choravam, e minha mulher e uma amiga que encontramos por acaso ficaram lembrando depois da sessão, chorosas, quando tiveram que vestir as mães delas quando morreram; ou seja, o filme mobiliza muito as pessoas desarmadas que vão só pela emoção pessoal e aó o filme ganha no jogo de aparências por mobilizar as tristezas e ansiedades das pessoas em relação às mortes, perdas e rituais pelos quais já passaram. Um “golpe baixo”, ao meu ver. Acho que poderia ser um bom filme, mas achei uma fraude. Em matéria de abordagem da morte e dos rituais de preparo de corpos eu prefiro aquela série de TV, “Six Feet Under” (A Sete Palmos) que era mais corajosa na abordagem (ainda que fosse bem do tipo novela) de temas ligados
    às perversões, fantasias, morte, etc.

    • Gallego, apesar do juízo crítico negativo, você é tão exuberante que sua leitura quase alça o filme a alturas imerecidas. O curioso é que muita gente aplaude e sai comentando, na verdade, a música. Essa é parte do “golpe” do filme: um chiclete de ouvido instrumental, repetido exaustivamente, que faz as pessoas acharem que gostaram do filme mais do que de fato gostaram.
      Já vi que boa parte da crítica americana não se rendeu ao alto teor de manipulação e à pretensa “importância” do filme (até na duração).
      Ufa! Estou curado. Desmarque a consulta.

  7. Comassim “quase”!?!?!? Com aqueles olhos maiores-que-o-mundo? Fui arrastado a contragosto para a sessão meses atrás e fui envergonhadamente dando o braço a torcer. Delícia de comédia!

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