El xamã de São Tomé das Letras

Em agosto de 1981, uma troupe de loucos atores argentinos bagunçou o coreto da Praça da República, em São Paulo, com uma performance artaudiana em que simulavam estar morrendo envenenados. Parte do povo os agrediu, parte os socorreu, e foram todos parar na Santa Casa de Misericórdia… E depois na polícia. Eram integrantes do Taller de Investigación Teatral de Buenos Aires, e estavam no Brasil na cola do seu líder e fundador, Juan Carlos Uviedo, refugiado da prisão da ditadura argentina. Uviedo continua até hoje por aqui. E é a ele que se refere o título do doc argentino El Provocador.

Uviedo vive numa montanha que dizem ter “comprado” em São Tomé das Letras (MG), onde criou a ONG Viva Criança. Continua dando aulas de teatro-provocação e atua como xamã e líder de uma certa utopia que se expressa em portunhol. Através de seu perfil, traçado por ele próprio e por amigos e ex-colaboradores, o filme de Silvia Maturana, Marcel Gonnet Wainmayer e Pablo Navarro Espejo (este um ex-membro do TIT) evoca uma faceta curiosa da resistência na Argentina. O TIT afrontava a caretice do regime militar fazendo teatro-agitação e vivendo uma vida conforme os mesmos princípios – leia-se orgias, drogas e teatralização em tempo integral. Como método, muito Artaud e a proposta anedótica de unir Stalin a Stanislawski.

Há bons materiais de arquivo, como imagens do episódio da Praça da República e cenas de um filme experimental-psicodélico feito pelo grupo com o título de A Eucaristia Segundo Juan Uviedo. Já as poucas vinhetas encenadas não se encaixam bem na linguagem do filme. O roteiro também falha em não explicar como Uviedo foi parar em São Tomé das Letras e assumido sua faceta xamânica. O mais interessante em El Provocador é desvendar mais esse estranho vínculo entre Brasil e os hermanos argentinos. Num chiste que faz sentido, o doc se apresenta como o “primeiro filme en portuñol”. Pode não ser o primeiro, mas é um dos que melhor exprimem essas surpreendentes relações. E não só entre gentes dos dois países, mas também entre arte, política, esoterismo e modos de vida pouco convencionais. Juan Oviedo lembra um Zé Celso em tom menor que houvesse optado pelo exílio.

El Provocador foi selecionado para o Panorama do BAFICI – Festival de Cinema Independente de Buenos Aires. Foi inscrito também em festivais brasileiros e deve aparecer ao longo do ano em alguma sala perto de você.             

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