Notícias das ilhas


“Chegou o crítico”, brincaram alguns alunos da pós-graduação em cinema quando apareci, terça passada, para minha primeira aula em Cabo Verde. Eles estavam finalizando um longa documental coletivo que colocaria à prova sua experiência prévia e também o aprendizado que chegava ao fim. Fragmentos do Mindelo foi exibido sábado no encerramento, e duvido que muitos docs de conclusão de curso apresentem a linguagem moderna e a abordagem incisiva que vi ali.

Um dos episódios acompanhava, em exemplar estilo cinema direto, a chegada de um pequeno container à casa de uma humilde família do Mindelo. Enviado por um parente emigrado nos EUA, o recipiente em forma de barril trazia roupas, calçados, brinquedos, shampoos, guloseimas. Diariamente chegam dezenas dessas remessas aos portos do arquipélago. A explicação é simples. Mais de 60% da população caboverdiana vive fora do país, especialmente em Massachussetts e Lisboa. As remessas financeiras deles respondem por algo entre 30 e 40% do PIB do país. Os containers familiares são apenas uma contribuição mais direta para suprir a baixa oferta de produtos de consumo em Cabo Verde.

Outro episódio do filme mostrava a construção de uma “casa-lata”, os barracos de folhas de latão que colorem a periferia pobre da cidade, muito semelhantes aos feitos com latas de óleo até os anos 1970 em bairros populares brasileiros. Os moradores erguem-nos clandestinamente à espera de que a Câmara do concelho subsidie sua transformação em casa de concreto.

Um dos fragmentos abordava o bairro controvertido de Ribeira Bote, que alimenta não só o orgulho de ser a “primeira zona libertada” do jugo português como a reputação de bairro perigoso, marcado por criminalidade e tráfico de drogas. Esse aspecto foi desbravado por Luis Alencar, o único brasileiro da turma, um baiano íntimo das favelas do Rio e autor do longa doc Bombadeira.

Para quem visita a cidade, entretanto, esse tipo de perigo parece lenda. O ambiente singelo e relax de todo o país resulta, por exemplo, na convivência entre pescadores pacatos jogando cartas, velhas vendedoras limpando seus peixes e jovens partilhando marijuana numa mesma pracinha do porto numa morna tarde de sábado. A profunda paz do Mindelo não é quebrada nem mesmo nas noites de sexta, quando os bares e esquinas se enchem de casais multirraciais, a moçada da cerveja e estrangeiros curiosos, todos embalados pelos ritmos em que se cruzam batidas africanas, swing caribenho e melancolia lusitana.

No filme dos alunos há também um episódio sobre os blocos de Mandinga, cujos participantes se pintam de preto e brincam de reviver suas tradições afro. Saem no famoso Carnaval de Mindelo, simultâneo ao do Brasil, mas “atrasado” um ano. Isso porque os mindelenses vêm ao Rio após cada folia para comprar adornos e adereços usados, que estarão no desfile deles no ano seguinte. Nessa época, o Mindelo costuma ser chamado, em bom crioulo, de “Brazilim”.

A Baía do Mindelo

Cabo Verde não tem crítica de cinema porque quase não tem cinema. Nem salas de cinema. A única sala comercial do Mindelo que ainda não se transformou em igreja, o Eden Park, está inativo e foi objeto de uma instalação aberta no sábado por Leão Lopes, cineasta, artista plástico e maior referência cultural da cidade junto com a cantora Cesária Évora. A instalação dispunha materiais de cinema no meio de uma sala, frente a um televisor que exibia imagens do Eden Park com acentos de marcha fúnebre. A expressão de revolta não parece fazer parte do cotidiano de um povo que sempre privilegiou a tranquila interação étnica, não conheceu grandes disparidades de classe e desfruta de uma paz de espírito muito característica. O caboverdiano comum fala baixo e sorri timidamente. Apressa-se a dizer “sim, sim” quando concorda com você, e a exclamar “ui!” quando concorda muito. Adora dar “boléia” (carona) nas estradas e botar a mesa para repartir com você.

A culinária, porém, assim como o artesanato, não me encantou. A dieta de legumes é pouco variada e os temperos que provei não pareciam nada especiais, mesmo nos peixes e mariscos. Acho que a cozinha caboverdiana padece também de certa timidez. O grogue, aguardente local, desceu melhor quando misturado com mel no chamado pontche. Suspeito que estão fazendo bons vinhos na Ilha do Fogo.

São Vicente: um Monument Valley by the sea

Cada ilha, aliás, tem suas particularidades. São Vicente, onde está Mindelo, tem a capital cultural e um porto importante. A estrada que corta a ilha de norte a sul (em não mais que 30 minutos de carro) passa por paisagens impressionantes, como uma espécie de Monument Valley à beira-mar. Durante minha estada, tive oportunidade de percorrer alguns trechos da árida Ilha do Sal, que sugere um Marte vulcânico. Os vulcões extintos estão onde menos se espera, provocando belas surpresas no viajante. As Salinas Pedra de Lume ocupam o bojo de uma cratera para onde o mar se infiltrou e parecem uma visão sobrenatural. Já na Ilha de Santo Antão, onde passei a sexta-feira de folga, uma imensa cratera foi coberta de lavoura, trazendo à lembrança imagens do Peru inca. Santo Antão é a maior, mais montanhosa e de natureza mais exuberante das ilhas. O passeio por ela nos transporta de visões de planeta desabitado a aldeias agrícolas que parecem saídas de ilustrações antigas e praias espargidas ao pé de falésias abissais. É essa ilha que fornece a maior parte do milho, feijão e batata, pratos de resistência da cozinha do país, ao lado do peixe e da carne de txuk (porco).

Santo Antão: uma cratera cultivada

Ilha do Sal: vulcão extinto, salina ativa

Falta muita coisa a Cabo Verde: água potável, hortaliças, cinema, indústrias, interação com o Brasil, uma maior divulgação de sua música deliciosa. Segundo alguns, falta também vergonha na cara dos políticos corruptos. A visão que o caboverdiano tem do Brasil é de um país de números inimagináveis, futuro promissor, telenovelas interessantes e uma realidade social conturbada. Os meus alunos analisaram criticamente Cidade de Deus e discutiram uma série de críticas profissionais ao filme. A impressão mais frequente foi um misto de fascinação pelo filme e repulsa pelas condições da favela. Uma aluna iniciou seu texto com a pergunta “Onde está Deus nessa cidade?”.

Em matéria de nome, Cabo Verde também soa incongruente: não há cabo nem muito verde naquele país. O tal cabo verde fica a centenas de quilômetros, na costa do Senegal.

Um comentário sobre “Notícias das ilhas

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