Viagens na garupa do cinema

Pequenos comentários sobre alguns filmes vistos na 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que continua até quinta-feira no Museu da República:

O MANUSCRITO PERDIDO, de José Barahona

Cartas portuguesas. A correspondência está no cerne desse doc em co-produção luso-brasileira, exibido na noite de abertura da mostra. Tudo começou quando José Eduardo Agualusa publicou as cartas de Fradique Mendes, poeta e aventureiro português que andou pelo Brasil no século XIX e libertou seus escravos antes da abolição, contestando os padrões da época. O documentarista português José Barahona veio recentemente ao Brasil em busca de um certo manuscrito deixado por Fradique. Ele narra sua viagem em forma de carta a Agualusa, ao mesmo tempo em que resgata trechos da Carta de Pero Vaz de Caminha. De certa maneira, Barahona incorpora o viajante português de sempre, mas agora interessado em procurar aspectos atuais da herança colonizadora de seus conterrâneos, especialmente no capítulo das contradições.

O que ele recolhe, num trajeto pelo interior da Bahia e no Rio de Janeiro, é um pequeno tratado de antropologia popular. Feirantes, monges, índios, sem-terras dão sua versão sobre a História e a atualidade. Muita coisa ali é mais novidade para ouvidos portugueses do que para os nossos, mas ainda assim alguns personagens se destacam. Como Noêmia, uma sem-terra feliz e vaidosa que parece ter saído de um dos melhores momentos de Eduardo Coutinho. A busca do manuscrito é pouco mais que um efeito retórico. Mais valem as reflexões do caminho, sejam as de Barahona, sejam as de alguns de seus interlocutores.

MORADA, de Joana Oliveira

Doçura mineira. Esse filme é uma prova de que o comum pode perfeitamente não ser banal. Joana Oliveira encontrou na sua própria família o material de um primeiro longa. Durante 56 anos, sua avó esperou pela desapropriação de sua casa, em área de Belo Horizonte progressivamente devassada pela ampliação de uma grande avenida. Enquanto a demolição não chegava, o sobrado virou um misto de museu da família e depósito de quinquilharias. Joana filmou Dona Virgínia nos três últimos anos dessa longa espera. Mais que um retrato daquele tipo de avó que todos queríamos ter, ela fez uma meditação sobre os sentimentos que nos prendem e nos afastam de um determinado lugar.

Impossível determinar quanto Dona Virgínia rejeitava e quanto desejava a ideia de sair de sua longeva morada. Mas quando chega enfim a hora, a emoção atravessa a soleira da porta. Pela lente da relação carinhosa entre avó e neta passam observações sutis sobre a tradicional família mineira: a empregada de mil e uma utilidades, o espaço do canto e das comidas na vida das pessoas, a mania dos guardados. Apesar de alguns trechos um pouco alongados, uma doçura e uma sinceridade muito grandes atravessam a tela e nos encantam.

DJENEBA, de Bata Diallo
Passa segunda-feira, às 20h

Mulher maravilha. Numa pequena comunidade rural do Sul do Mali, Dejeneba é a típica mulher que assume o papel de chefe da família na estação das secas, enquanto o marido trabalha longe em busca de salário. Djeneba tem muito do que cuidar: da terra, do estudo dos filhos, da cozinha, da venda de sopa de cabeça de bode para ajudar nas finanças da casa. Através desse perfil intimista, a diretora malinesa Bata Diallo (que estuda na Noruega) descreve o funcionamento de toda a comunidade. Especialmente o destino das mulheres, que, depois de casadas, só saem do lugar com o marido ou com o divórcio. O velho Nono, enfraquecido e experiente, é uma espécie de reserva de consciência tradicional. A possibilidade de ruptura com aquela ordem é tão remota quanto a lua das noites claras.

Mesmo sem grandes descobertas ou revelações, o filme cumpre sua função etnográfica com certa graça e bons insights. Durante as filmagens, Djeneba se desincumbiu com louvor de uma tarefa a mais: conduzir conversas diante da câmera para plasmar o tom e as questões da vida na comunidade. Uma bela mulher, sem dúvida.

VER O PESO, de Gavin Andrews

Inventário burocrático. Já apreciei mais outros trabalhos desse diretor canadense radicado há oito anos no Norte brasileiro. Seu inventário de personagens e histórias do mercado Ver o Peso, de Belém, soa burocrático e repetitivo. A inclusão de tímidos depoimentos de antropólogas e uma funcionária do Iphan trai o caráter institucional do filme e falha em aprofundar os valores simbólicos e culturais apenas ventilados aqui e ali. O Ver o Peso passou por reformas sanitizadoras nos últimos tempos, mas parece não ter perdido o sabor que conheci há muitos anos. O roteiro errático e os problemas de exposição na fotografia é que não ajudam muito a contar essa história.

E alguns que eu já havia visto antes:

CINEMATÓGRAFO BRASILEIRO EM DRESDEN, de Eduardo Thielen e Stella Oswaldo Cruz Penido
Passa domingo, às 15h

Pérolas de arquivo. Há exatos 100 anos, três filmes científicos pioneiros foram exibidos com grande repercussão no Pavilhão Brasileiro da Exposição Internacional de Higiene de Dresden, Alemanha. O próprio Oswaldo Cruz os apresentou. Dois deles mostravam as medidas preventivas contra a febre amarela levadas a cabo na cidade do Rio de Janeiro (com cenas épicas de casas sendo cobertas com imensos lençóis para a fumigação). Outro exibia crianças portadoras do Mal de Chagas. Com um formato bastante clássico, o curta se destaca sobretudo pelo interesse histórico do material resgatado. Essas pérolas de arquivo são contextualizadas por depoimentos de especialistas.

BABÁS, de Consuelo Lins
Passa segunda-feira, às 18h

Um hábito colonial. Um curta já antológico, super-premiado, que parte de uma história pessoal para levantar a cortina de sobre o hábito colonial brasileiro de famílias brancas contratarem babás negras. Consuelo não disfarça uma certa influência de Santiago, de João Moreira Salles, o que só beneficia seu doc, meditativo e ao mesmo tempo incisivo.

WALACHAI, de Rejane Zilles
Passa quarta-feira, às 16h

Nos limites da identidade. Depois de fazer um curta a respeito de um velho imigrante que escrevia a história de sua região gaúcha em cadernos pautados, Rejane partiu para este longa sobre o Walachai. Ali se fala um dialeto já em desuso até na Alemanha, e o Brasil parece num dos limites de sua identidade. A diretora, nascida lá, tem a sensibilidade e o talento suficientes para nos fazer mergulhar naquele lugar.

SOLDADOS DA BORRACHA, de Cesar Garcia Lima

A História pela boca de quem viveu. Uma proposta simples, mas eficaz: encontrar antigos seringueiros da Amazônia que trabalharam no esforço para ajudar os aliados na II Guerra. Embora o tema não seja novo em documentários mais ou menos recentes, a força deste curta está em concentrar-se nos personagens e daí extrair seu carisma. São eles que dimensionam humanamente uma história cheia de aventuras, ilusões e decepções. Roteiro, edição e fotografia de ótima qualidade completam o serviço.

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