Notas ao redor de “Pina”

Por sorte, o primeiro grande filme sobre artes cênicas em 3D reúne dois nomes dignos da efeméride: Pina Bausch, a coreógrafa que alterou completamente o estatuto da dança no mundo, e Wim Wenders, um dos melhores pagadores de tributo via cinema. Pina é um filme glorioso, que nos encanta e arrebata, fazendo-nos sentir quase na carne o prazer e a dor da arte.

O filme está acima de comentários críticos, e eu mesmo não sinto a menor vontade de fazê-los. Prefiro chamar atenção para alguns pontos:

– Nos cinemas com projeção 3D, procure sentar-se nas últimas fileiras. Quanto mais longe, maior é o efeito de profundidade do palco onde os bailarinos evoluem.

– São três as participações brasileiras no doc: a canção Leãozinho, de Caetano Veloso, que marca um dos momentos mais “fofos” (a palavra é essa mesmo); a bailarina Morena Nascimento Regina Advento (obrigado, Liliam Hargreaves, pela correção), que integra a companhia e dá seu depoimento em português; e os desenhos de OsGêmeos, que aparecem nas paredes do túnel de uma ferrovia desativada perto de Wuppertal. Wenders também fotografou e expôs esse trabalho da dupla paulista (veja a nota no site deles). Além disso, consta que a coreografia Água, que encerra o filme, teria sido inspirada por uma visita de Pina ao Rio de Janeiro em 2001.

– A coreografia dos homens e mulheres perfilados frente a frente no salão é da obra Kontakthof. No filme, alternam-se adolescentes, adultos e pessoas idosas fazendo o mesmo número. Os adolescentes, que aparecem mais rapidamente (foto acima), eram amadores que toparam o desafio de aprender o método de Pina, muitos sem jamais terem ouvido sequer falar dela. Esse processo está no doc Sonhos de Dança – Nos Passos de Pina Bausch (Tanzträume), de Anne Linsel e Rainer Hoffmann (2010). Saiu em Portugal num DVD duplo com o Pina do Wenders. Um ótimo complemento, por sinal, já que mostra a árdua construção desse misto de dramaticidade e ludicidade, controle dos músculos e entrega radical que a gente vê no palco. E Pina aparece avaliando os alunos, reagindo às provas, etc. Ela era mesmo uma figura quase mítica, que despertava fascínio e medo nos jovens aspirantes, mas também era capaz de fazê-los descobrir o próprio corpo e perder a timidez.

– Wim Wenders é dono de uma magistral capacidade de compreender os objetos de seus documentários e forjar uma maneira orgânica de tratá-los. Basta ver como são diferentes os tributos que ele fez a Yasujiro Ozu em Tokyo-Ga, ao estilista Yoji Yamamoto em Notas Sobre Roupas e Cidades (no DVD brasileiro, Identidade de Nós Mesmos) e à velha guarda cubana em Buena Vista Social Club. Em Pina, a dança prepondera largamente sobre todo o resto, numa montagem excepcional que faz diversas coreografias se interpenetrarem e interagirem. Os curtos e multifocados depoimentos dos bailarinos não são ditos para a câmera, mas ouvidos por eles, como um eco de suas consciências.

– Veja e reveja o filme. Na segunda vez, é ainda melhor.

5 comentários sobre “Notas ao redor de “Pina”

  1. Pingback: Meus melhores de 2012 « …rastros de carmattos

  2. Carlinhos,

    Ontem vivi uma experiência única, ao assistir Pina em 3D. Pena que não tenha sentado nas últimas fileiras.

  3. O filme mostra porque Pina era o que era. Redime a impressão que me deixou por uma apresentação no Municipal do Rio ano passado (ou atrasado?), já depois de sua morte, e que lembrava pouco mais do que um vanguardismo datado à la Gerald Thomas. Já os trechos das coreografias filmadas (com extrema elegância cinematográfica) pelo Wenders são mesmo excepcionais. Vendo o filme me ocorreu que em acobacias circenses os artistas mostram que existe uma gravidade conta a qual eles lutam e vencem; enquanto na dança, a gravidade parece simplesmente deixar de exisitir pela perícia dos bailarinos em seus movimentos sem esforço aparente (apenas aparente). Mas os trechos vistos no filme, frequentemente mostram os dançarinos caindo (e levantando): a gravidade está lá, sem acrobacia de esforço nem leveza ilusória de ballet: é a própria insustentável leveza do ser.

    • A queda é justamente um dos elementos dramáticos mais fortes nas criações da Pina. Aquilo que os bailarinos tradicionais mais evitam ela procura e dramatiza. É lindo demais.

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