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O GORILA me reconcilia com o cinema de José Eduardo Belmonte. Desde “Se Nada Mais Der Certo” ele não abraçava um material à altura de sua criatividade. O encontro com a novela de Sergio Sant’anna é a oportunidade para um filme altamente sensorial, cheio de erotismo cinemático e legitimamente delirante. Um filme de vozes, bocas e dentes. Otávio Müller está deslumbrante como o ex-dublador assombrado pela culpa diante da mãe e que preenche a solidão fazendo ligações provocantes para desconhecidos. Ao sofrer uma ameaça, ele desaba e perde as noções de realidade, espaço e identidade. Suas cenas com Alessandra Negrini são notáveis e constituem a alma do filme. Tudo se apresenta como um constante pesadelo, vagueando entre pessoas e espectros, vozes e ecos, depressão e paranoia, encantamento e cortes perversos. Apesar de algumas discretas “barrigas”, o roteiro nos transporta num fluxo quase ininterrupto a bordo dos supercloses e requintes fotográficos de Bárbara Alvarez e de uma espantosa trilha sonora de clássicos e contemporâneos. Realizado dois anos antes de “Alemão” e logo depois de “Billi Pig”, O GORILA nos faz esquecer aqueles dois filmes e festejar o reencontro com um dos mais talentosos cineastas brasileiros.


Há 32 anos Luiz Rosemberg Filho não fazia um longa. Sua produção vinha sendo de curtas em vídeo, colagens gráficas e textos, estes geralmente indignados com a rendição do mundo – e do cinema brasileiro em particular – à mediocridade dos sistemas. Graças ao estímulo do produtor Cavi Borges, Rosemberg volta agora aos longas com DOIS CASAMENTOS, filme-performance modesto na produção mas ambicioso na enunciação. De certa forma, é mais um manifesto do diretor contra o império das aparências, os sonhos pequenos de sucesso convencional e as “representações baratas da felicidade”. Duas noivas aguardam os noivos e convidados, que nunca chegam. Enquanto isso, a experiente Carminha (Patrícia Niedermeier) tenta convencer a bancária interiorana Jandira (Ana Abbott) a admitir que o casamento está “impregnado pela morte”, principalmente num “mundo governado pela demência” e num país “governado pela melancolia”. É Rosemberg puro, falando pela boca da personagem. Esse discurso é quebrado por rudimentos de dança e uma tentativa de sedução, sob o pretexto de que o amor homossexual seria uma quebra radical de convenções. É o que abre espaço para alguma nudez, elemento que, junto às falas inconformistas e às citações literárias, integra o universo criativo do autor desde sempre. Entre os atos de vestir-se e despir-se, falar e escrever na pele, Rosemberg reitera sua voz de resistência ao naturalismo e à banalização do corpo.


MUITOS HOMENS NUM parte de um bom argumento (as “Memórias de um Rato de Hotel”, de João do Rio) e de uma premissa amoral interessante, a de que a verdade pode decepcionar e portanto é melhor prosseguir na farsa. Embora a história real do personagem de Vladimir Brichta, extraída da crônica criminal do início do século XX, tenha sido mais trágica – ele morreu na prisão –, Mini Kerti preferiu uma perspectiva romântica, mas onde o amor não dita as regras, e sim é mera contingência na vida do ladrão perspicaz e sedutor. O filme se esmera nas locações do Rio antigo e nos cuidados da direção de arte, mas diversas carências se fazem sentir. Não há um legítimo sentimento de época para além da simulação de fachada, o que fica mais evidente nas caracterizações de Félix Pacheco e Lima Barreto. Nos diálogos falta ritmo e no geral, agilidade. A ação se espreguiça com jeito de telenovela e os atores se desincumbem burocraticamente de seus papéis. Além disso, pareceu-me que o roteiro desperdiça uma sugestão que deveria ecoar mais efetivamente: a invenção de histórias da vida alheia que o ladrão e sua amante (Alice Braga) cultivam juntos. O fato de João do Rio ter escrito o livro como se fossem as memórias do próprio personagem, e cuja autoria permaneceu em dúvida durante décadas, seria um excelente dispositivo para um filme mais ousado e criativo.


É provável que para a grande maioria dos espectadores o que importa mesmo em ENQUANTO SOMOS JOVENS seja a historinha do casal maduro e estabelecido que “abre a porta” para o casal jovem e descolado. É ali que Noah Baumbach brinca com os conceitos de contemporaneidade, atribuindo os gadgets de hoje aos mais velhos e práticas ultrapassadas aos mais jovens. Mas a mim o que mais interessou foi a discussão que se instala a respeito das práticas do documentário hoje em dia. Ambos os protagonistas masculinos são documentaristas. O mais velho está fazendo um doc tradicional sobre os famosos “grandes temas”. O outro tem um projeto de doc-processo a respeito de um único indivíduo, a partir de um reencontro no Facebook. Não tarda para que essas duas concepções de acesso à realidade entrem em choque e coloquem a ética na berlinda. Até que ponto vale mentir para chegar a uma verdade almejada? Quanto de performance e ficcionalização pode ser suportado por um documentário contemporâneo? O que conta mais no documentarismo atual – o micro-assunto ou as questões macro? Tudo isso é esboçado ao mesmo tempo que os personagens lidam com bebês, sorvetes e bicicletas. O filme flerta com o alternativo apenas para desqualificá-lo e, no final, fazer o elogio da caretice. Mas, apesar da forma pouco sutil como é apresentada, a controvérsia sobre os limites da mentira e do oportunismo no documentário deixou um eco persistente após a sessão.


O título original de O CIDADÃO DO ANO é “Kraftidioten”, expressão intraduzível que designa especialistas em determinado assunto ou tarefa mas que são completos idiotas em relação ao resto. O título internacional também é irônico, “In Order of Disappearance”, invertendo a costumeira ordem dos créditos de elenco por entrada em cena. Qualquer que seja a versão, aponta para uma qualidade que demora um pouco a aparecer no filme de Hans Petter Moland: o humor. Os 20 minutos iniciais são de um thriller banal: um pai começa a matar os envolvidos no assassinato equivocado do seu filho, com a constante de rostos transformados em lasanhas de sangue. É nauseante, pensei em sair do cinema, mas lembrei que havia lido em algum lugar que o filme era “divertido”. Valeu a pena ficar e assistir à completa virada de tom. Ainda assim, não sei se aquilo é exatamente uma diversão. A caricatura das gangues – uma norueguesa, outra sérvia, com Bruno Ganz no papel de um godfather balcânico –, as alusões preconceituosas dos personagens a imigrantes e países quentes, o frequente irrompimento de uma violência tarantinesca on the rocks, tudo convoca o distanciamento do espectador, o riso truncado, o prazer incômodo. Rir dessa comédia criminal é como abrir caminho na neve: exige esforço e resistência ao frio.


Nunca me entusiasmei por “Esperança e Glória”, do John Boorman. Achei frustrado no humor, na pretensa magia e na tentativa de soar felliniano. A impressão de desapontamento se confirma com RAINHA E PAÍS, uma retomada do personagem central 12 anos mais velho, mas 27 anos depois do filme anterior. A defasagem se faz sentir na produção menos caprichada e na dramaturgia um tanto velhusca. Bill Rohan, o menino que se divertia enquanto as bombas alemães choviam sobre a Inglaterra na II Guerra, agora é um jovem convocado pelo Exército em tempos de Guerra da Coreia. Seu espírito irreverente encontra eco num colega de farda, com quem ele desafia e tenta por a nu os durões do Exército britânico. Ao mesmo tempo, os dois procuram o amor nas frestas do serviço militar. Boorman cultiva o tom de comédia de caserna, mas não acrescenta nada de novo no front do gênero. Trabalha com caricaturas e clichês mornos do romantismo juvenil dos anos 1950. Tudo no lugar, certinho como uma ordem unida.