Na rotina, as sementes da crise

Futuro Junho aborda o período imediatamente anterior à Copa de 2014, em São Paulo, através de quatro profissionais. Por coincidência ou dispositivo, todos têm nomes com a inicial “A” e se colocam em diferentes posições relativamente à mobilidade urbana. São eles o articuladíssimo funcionário de uma corretora de investimentos que cruza a cidade em seu carro, um tranquilo operário da indústria automobilística, um ativista do sindicato dos metroviários (o único vivendo a situação excepcional de demitido) e um motoboy habitante da periferia. O documentário os observa – separadamente – no trabalho, no convívio doméstico e em conversas sobre a conjuntura do país. Nessas conversas são tratados desde os aspectos macroeconômicos até pormenores sobre saúde e planejamento familiar, passando pelo movimento grevista, as relações entre sindicato e fábricas, as críticas à FIFA e as expectativas quanto à Copa. Pode-se ver ali, com o dólar ainda a 2,20 reais e as primeiras dificuldades do governo Dilma, a semente da grande crise em que o país se meteu.

Enquanto os teóricos do documentário de observação preceituam que uma fase de crise ou transformação dos personagens é a ideal para esse tipo de filme, Maria Augusta Ramos, uma das poucas cultoras do modelo no Brasil, costuma optar pelo oposto. Seus filmes geralmente tratam de pessoas vivendo suas rotinas. Através delas, a diretora procura traçar radiografias de determinados estamentos sociais ou do momento de uma coletividade. Maria Augusta filma estados, não processos.

O recorte classista adotado pode sugerir um retorno ao documentário sociológico vigente nos anos 1960-70, que tem em Viramundo, de Geraldo Sarno, um de seus expoentes. Mas é preciso considerar que Futuro Junho não busca o contraste retórico nem o diagnóstico da sociedade. As quatro linhas paralelas que se estendem no filme, pontuadas por conflitos entre grevistas e policiais, revelam principalmente as diferentes inserções dos personagens na vivência e na discussão do momento nacional.

Nunca é demais destacar a qualidade técnica da captação de som e imagem nos filmes de Maria Augusta. Nesse trabalho em particular, sua capacidade de mobilizar os personagens em cenas privadas atinge um grau de excelência.

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