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As duas primeiras sessões competitivas do VII CachoeiraDoc me confirmaram ontem uma primeira impressão sobre o festival: a de que os filmes são selecionados mais para cumprir certas pautas do que para representar a produção atual de documentários no país. Não há demérito nisso, mas apenas a constatação de um “lugar” que o evento reivindica no panorama dos festivais. A presente edição, em momento tão crítico da história do país, certamente reforçou essa preferência por filmes engajados em lutas de comunidades e sujeitos atingidos por hostilidades, como destacou o texto dxs curadorxs na introdução do catálogo.

Lutas e guerreirxs, portanto, estão em primeiro plano. Os indígenas estiveram na frente e detrás das câmeras em dois filmes. Voz das Mulheres Indígenas, de Glicéria Tupinambá e Cristiane Pankararu, é coleta um tanto redundante de depoimentos sobre feminismo indígena. Caciques e líderes de comunidades falam de suas reivindicações e conquistas contra o preconceito de fora e o machismo de dentro de seus próprios grupos. Já em Tekowe Nhepyrun: A Origem da Alma, de Alberto Álvares, temos uma delongada exposição da questão da saúde numa aldeia do Paraná. Em torno do atendimento de uma mulher grávida pelo rezador e a parteira, o filme dicorre sobre os métodos da medicina e da alimentação naturais, reservas de conhecimento que os índios prezam de maneira mística, numa conjunção indivisível entre corpo e alma.

Tança, realização coletiva da Irmandade dos Atores da Pândega e da Associação Quilombola de Mato do Tição (MG), ouve os relatos de velhos quilombolas a respeito de uma matriarca recém-falecida, supostamente aos 130 anos. Embora dependesse das legendas em inglês para entender a maior parte das falas – curiosamente, a mesma queixa que eles têm da velha Tança –, apreciei bastante a vivacidade e o tom peculiar com que os velhinhos e velhinhas do quilombo conservam e compartilham suas memórias. Esse e Tekowe Nhepyrun foram os únicos filmes do dia a não apresentar uma questão política em primeiro plano.

Histórias de violência urbana compareceram em Onze, assinado por três coletivos do Ceará, e Quem Matou Eloá?, de Lívia Perez. O primeiro mostra a reação de uma comunidade de Fortaleza à chacina policial que vitimou 11 pessoas. Em depoimentos e cenas de protestos de rua, o curta se presta mais à condição de ferramenta política que de peça documental com alguma originalidade. Por sua vez, Quem Matou Eloá? (foto acima), já premiado no Atlantic Doc do Uruguai, recorre a um formato semelhante ao de Ônibus 174 para recompor e refletir sobre o sequestro fatal de uma moça pelo namorado abandonado em Santo André (SP), em 2008. As motivações do fato e o comportamento da mídia e dos policiais são “julgados” numa espécie de tribunal composto por mulheres (defensora pública, professora, ativista, etc) pela perspectiva da violência familiar e da habitual incriminação das mulheres vítimas. Com justiça, foi o mais aplaudido de sua sessão.

Sepulcro do Gato Preto, de Kaneda Asfixia e Frederico Moreira, é um estranho doc de investigação que parte à procura de um pichador desaparecido em Perus (SP) e depois abandona esse mote enquanto envereda pela história dos “Queixadas”, os trabalhadores da fábrica de cimento Portland que viram sua comunidade desaparecer após a longa e pioneira greve de 1962-1969. Esse é um fato histórico que merecia tratamento mais pesquisado e sério em lugar da abordagem tateante e confusa que vemos na tela. O mesmo se pode dizer de Há Terra!, de Ana Vaz, que se dilui entre experimentação errante e libelo obscuro contra a colonização de ontem e de hoje.

Taego Ãwa

Sobre Taego Ãwa, o longa exibido ontem à noite, eu já havia escrito o seguinte quando da Mostra de Tiradentes:

Os índios um dia conhecidos como avá-canoeiros são os personagens de Taego Ãwa, que os irmãos goianos Marcela e Henrique Borela fizeram a partir do desejo de confrontar remanescentes da tribo com uma série de materiais audiovisuais sobre eles encontrados num arquivo de universidade. Em grande parte, o documentário se nutre das imagens do passado, filmadas em Super 8, 16mm e VHS. Uma cena de caçada ao cervo, obstinadamente acompanhada por um cinegrafista universitário, é o momento mais forte. Talvez por timidez ou excesso de zelo, Marcela e Henrique não exploraram a contento o dispositivo de devolver as imagens aos índios. Nem, ao que consta, estes se mostraram lá muito interessados. Daí uma certa dissociação entre passado e presente.

Ainda assim, fica claro que a transmissão da cultura dos Ãwa dependia em grande parte da figura patriarcal do velho Tuttawa, morto depois das filmagens. O doc reconta uma história de coerção, deslocamento e morte dos índios pelos brancos na década de 1970, assumindo então uma postura de solidariedade à luta da família Ãwa pela demarcação de suas terras. Em dado momento, a narrativa abandona o tom de observação e exposição de arquivos para montar uma colagem bastante retórica sobre o avanço do poder político-industrial branco sobre as populações indígenas. Em parte, é um aceno dos Borela à inspiração assumida de Serras da Desordem.