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Dá pena e um pouco de indignação ver o bonequinho de O Globo olhar indiferente para A PASSAGEIRA. Este filme peruano, estreia na direção do ator Salvador del Solar (“Pantaleão e as Visitadoras”), é um dos mais interessantes e competentes do cinema latino-americano recente. O roteiro primoroso do próprio Solar, baseado em argumento de Alonso Cueto, parte de um encontro casual. O taxista Harvey Magallanes (Damián Alcázar) recebe em seu carro uma passageira (Magaly Solier) que já passou por sua vida num passado distante, quando ele era soldado no combate ao Sendero Luminoso. O que vem a seguir é uma sucessão de surpresas envolvendo também um coronel reformado e acometido de Alzheimer (Federico Luppi, magistral).

A doença do esquecimento é uma metáfora para os mecanismos de defesa com que conta a sociedade peruana para superar um passado sombrio. Magallanes é um homem às voltas com sua consciência, mas também com a sobrevivência financeira, o que torna o personagem especialmente fascinante. Mas não é fácil aplacar as culpas quando tudo conspira para sepultar os traumas e aconselhar o esquecimento. Eis uma mirada bastante original para a história política recente da América do Sul, ao mesmo tempo em que traça um panorama da luta cotidiana dos limenhos pobres contra a miséria.

O suspense quase ininterrupto, a precisa direção de atores, a trilha sonora inquietante e a fotografia impecável, com um uso expressivo da topografia da capital peruana, fazem de A PASSAGEIRA um filme para não deixar ninguém indiferente. Se o bonequinho não aplaudiu, os festivais de Havana, Huelva, San Sebastián, Nashville e Mannheim-Heidelberg o fizeram com prêmios.