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por Paulo Lima

A chinesa Ye Haivan é um desses personagens que correspondem a uma pepita de ouro. Ativista dos direitos humanos em seu país, ela é conhecida mundialmente pelo apelido de Hooligan Sparrow. Sua luta incansável como líder de manifestações contra a exploração sexual da mulher na China é o tema do longa-metragem HOOLIGAN SPARROW, da diretora Nanfu Wang. Com uma câmera na mão e uma investigação na cabeça, Nanfu Wang, radicada atualmente nos Estados Unidos, retorna a seu país para registrar toda a história. A missão não se revelará nada fácil, já que implica em contornar as barreiras da censura impostas pelo governo de Pequim. Assim, as filmagens são conduzidas sob uma cortina de risco e insegurança, o que faz com que ocorram através de meios furtivos, com o uso de câmera oculta em óculos, celulares e gravadores. Tal detalhe impõe ao filme uma dinâmica de urgência e temor, principalmente nas cenas de rua.

Hooligan Sparrow é uma mulher roliça e fora dos padrões tradicionais de beleza, mas sua coragem e determinação conquistam de imediato nossa empatia. Ela tem 38 anos – embora aparente mais idade – e uma filha de 13 anos, fruto de um casamento que acabou. Num cenário de machismo e impunidade institucionalizada, Hooligan volta-se para a defesa dos interesses das vítimas de abuso sexual. O foco inicial do filme é uma manifestação organizada por ela e um grupo de ativistas contra um episódio envolvendo um diretor de escola e seis meninas estudantes de menor idade.  A partir desse fato ocorrido na pequena província de Hainan, o filme amplia o foco ao mostrar que o problema atinge dimensão nacional, com a conivência de autoridades.

Como parte de seu ativismo, Hooligan oferece sexo gratuito a trabalhadores imigrantes, o que a torna uma persona mais do que non grata na rígida e hipócrita sociedade chinesa. Em razão de sua obstinação, ela começa a ser perseguida implacavelmente e termina presa. As agressões vêm de todos os lados: da polícia e da comunidade. Numa cena filmada com celular, Hooligan registra o momento em que seu apartamento é invadido por populares furiosos, acobertados pela própria polícia. Encarcerada por vários dias, é libertada e volta a sofrer ameaças, tendo que deixar a cidade. Na distante província de Guangdong, tenta retomar a vida com a filha. Mas é mais uma vez hostilizada, deixando para trás, inclusive, sua mobília. Encurralada, sem alternativas, mas sem exibir qualquer temor, retorna para sua cidade natal e para suas origens rurais.  Obliquamente, o filme revela a pobreza que ainda persiste numa China glamourizada e endeusada no Ocidente. O cerco se fecha também em torno de Nanfu Wang, cujo raio de ação passa a ficar mais restrito. Num contexto em que o tráfico sexual de mulheres e o estupro atingem proporções alarmantes em várias regiões do planeta, o filme de Nanfu Wang e sua corajosa personagem são um poderoso libelo contra a tirania e a impunidade que atingem a mulher e os direitos humanos.