Mulheres à beira do kitsch

Sobre PERSONAL SHOPPER e SOUVENIR

Kristen Stewart, a atriz americana do momento, tem vocação para papéis de assistente de celebridades (“Acima das Nuvens”, “Café Society”) e mocinhas envolvidas com o sobrenatural (“A Saga Crepúsculo”). Em PERSONAL SHOPPER ela junta as duas vocações como uma americana em Paris que vive entre fantasmas. Ela tem poderes mediúnicos e tenta fazer contato com o irmão recém-falecido. A mulher famosa para quem ela trabalha comprando roupas e joias também é uma espécie de fantasma que quase nunca lhe aparece. E ainda tem um misterioso (mas nem tanto) interlocutor que manipula seus desejos e medos através de mensagens no celular. Kristen se move nesse terreno pantanoso da forma como sempre atua: fala titubeante, expressão neutra, passando uma impressão de fragilidade e coragem ao mesmo tempo. A mim enjoa mais do que encanta.

Olivier Assayas, crítico e cineasta em geral superestimado, agencia referências eruditas para envernizar a cara de pau do filme: a pintora sueca Hilma af Klint, precursora do abstracionismo, e o escritor Victor Hugo também foram espíritas. Ok, anotado. Maureen, a protagonista, embarca numa experiência em que o ocultismo, o fetiche psicológico e as ameaças físicas se misturam a ponto de não se discernir mais entre uma coisa e outra. Ela é uma mulher à procura de sair de si mesma. A inveja corporal que sente em relação à patroa rima com sua atração pelo limiar do mundo dos mortos.

Em alguns momentos o filme impõe um suspense gótico eficaz. Em outros, apela para recursos surpreendentemente banais, como um poltergeist vomitando ectoplasma e presenças invisíveis que sustentam copos no ar ou precisam que portas automáticas se abram para passar. Assayas ganhou o prêmio de direção em Cannes, mas o roteiro de PERSONAL SHOPPER, além de bastante kitsch, é mais intrigante nas intenções do que no resultado.



SOUVENIR é um filme que luta o tempo todo contra a intromissão do ridículo – e acaba perdendo. Isabelle Huppert dessa vez empresta sua têmpera imperturbável a uma personagem ingrata. Ela é uma antiga cantora de pouco sucesso – lembrada principalmente por uma derrota num concurso de música europeu – que hoje trabalha como operária numa fábrica de conservas. A chegada de um jovem novato (Kévin Azaïs) vai propiciar a revelação de seu passado e uma tentativa de retorno ao romance e à ribalta.

O fato de ser inconvincente não prejudicaria o filme se o código de fantasia romântica fosse plenamente assumido. Mas o diretor belga Bavo Defurne tenta imprimir tom realista a uma história que vai ficando cada vez mais patética até cair num melodrama burlesco. Cruze Douglas Sirk com um dramalhão mexicano e uma chanchada da Atlântida e chegará bem perto.

Na primeira parte do filme, enquanto Liliane se recusa a ser “Laura” de novo, a tarimba de Isabelle domina e sustenta a proposta. O misto de paixão e condescendência de Liliane para com o projeto do namoradinho pode ser compreendido razoavelmente como fruto de uma carência recalcada. Mas a atriz não tem como salvar os disparates reservados para o desenrolar da história. Ela nada pode contra um roteiro cheio de furos, como um ex-marido participando do júri do concurso ou a persistência de uma mulher tão experiente diante de episódios os mais constrangedores. SOUVENIR tentou emular o cinema antigo e escapista, mas ficou apenas antiquado e, no final, descabelado.

 

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