Amazônia e Gaza

Pílulas sobre Z: A CIDADE PERDIDA e DÉGRADÉ –

As repetidas expedições do Coronel Percy Fawcett em busca de Z: A CIDADE PERDIDA são uma das tantas aventuras movidas por mitologias europeias a respeito da Amazônia. Sugestionado pelo relato de um índio durante expedição de mapeamento, e impressionado pela sabedoria indígena, Fawcett adquiriu a obsessão de descobrir uma civilização primordial nos confins da selva. Entrou em choque com o etnocentrismo europeu e acabou desaparecendo nas brumas do que acreditava ser o seu destino.

Um personagem herzoguiano sofre aqui a ausência de Werner Herzog. O diretor James Gray está longe de conseguir imprimir o carisma adequado a uma grande aventura, nem a marca autoral que poderia levar essa história ao âmago de seus significados. O filme parece avizinhar-se ora de “Fitzcarraldo”, ora de “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, ou mesmo de “Apocalipse Now”, mas só no último ato alcança alguma distinção, quando a obstinação de Fawcett ganha ares mais lendários. Até então, a aventura corre em banho-maria, resfriada pelas limitações de Gray no gênero e pela falta de magnetismo dos atores principais. O protagonista é sanitizado demais no papel de um mocinho sempre equilibrado, penteado e impecável. Faltou colocar em cena o grão de loucura que animava aquela busca por mais uma versão de Eldorado.

As sete viagens de Fawcett à Amazônia são reduzidas a três,  o que deveria ter correspondido a uma redução na duração do filme, de excessivos 141 minutos. Orlando Villas-Bôas contava que o explorador inglês tinha sido morto por índios ferozes. Já o livro no qual o filme se baseia, de David Grann, sustenta que pistas recentes confirmariam as suspeitas de Fawcett. A Amazônia continua sendo uma floresta de narrativas.



O drama palestino DÉGRADÉ usa a metáfora da prisão para tentar sintetizar o espírito de um determinado momento histórico. Como o egípcio “Clash”, mas com qualidade muitíssimo inferior, seus personagens estão encerrados num espaço exíguo enquanto os conflitos explodem lá fora. No caso, um pequeno salão de beleza de Gaza (filmado na Jordânia), onde duas mulheres atendem a duas clientes e outras oito esperam. No tempo real de pouco menos de 80 minutos, elas discutem política, vida religiosa, a guerra em curso e violência doméstica; tentam contato com seus maridos ou namorados através de celulares, fofocam e implicam umas com as outras. Do lado de fora, o Hamas entra em choque com uma milícia local, mas a câmera permanece nos limites do salão até a penúltima cena.

O feminino é retratado através de figuras estereotipadas como a doidona cômica, a ultraortodoxa de cara amarrada, a noivinha nervosa com o casamento iminente, a grávida aturdida por contrações, a divorciada amarga e a mulher madura cultivando uma imagem de sedução (esta vivida por Hiam Abbass, o rosto mais conhecido do elenco). O ritmo oscila entre a inércia e os exageros dramáticos, deixando entrever o amadorismo dos diretores Tarzan e Arab Nasser, irmãos gêmeos sob pseudônimo. A intenção, nota-se, era criar um microcosmo revelador que rondasse o absurdo, mas a falta de nexo entre personagens e situações, assim como a debilidade da filmagem, faz tudo se arrastar penosamente. O fato de o salão pertencer a uma imigrante russa tampouco rende alguma observação relevante.

Curiosamente, num filme dirigido por um Tarzan, o mascote – e possível alegoria – é um leão roubado do zoológico. É justamente Tarzan Nasser quem conduz o animal, em mais uma referência confusa desse filme de boas e frustradas intenções.

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