Era uma vez em Caliwood

Em tempos de prestígio do cinema da Colômbia, nada mais oportuno do que a mostra “A Caliwood de Luis Ospina: Cinema Colombiano de Vanguarda”, aberta ontem (terça) na Caixa Cultural RJ. Ospina é mais conhecido entre os cinéfilos brasileiros por seus pseudodocumentários Agarrando Pueblo e Um Tigre de Papel (lançados juntos num DVD da Videofilmes). São exemplos de inteligência e ironia no trato com as demandas do cinema documental.

Em Agarrando Pueblo (1978), uma falsa equipe de cinema-verdade procura os aspectos mais sórdidos da miséria de Cali para exibir na televisão alemã. Um Tigre de Papel (2007) retraça a vida de um artista imaginário com o mais convincente aparato documental, chegando a transcender a questão entre verdade e mentira.

A mostra, com curadoria de Lúcia Ramos Monteiro, traz uma inestimável oportunidade de conhecer mais desse cineasta provocante, único sobrevivente dos três diretores que lideravam o Grupo de Cali (1971-1991). Ele próprio estará presente para uma masterclass no próximo sábado (1/7) e encontros com os colegas Sandra Kogut e João Moreira Salles. A programação completa, que inclui filmes de outros diretores de Caliwood e um minicurso, pode ser consultada no site da mostra. (http://buenaondaproducoes.com.br/caliwood/)

Comento a seguir o filme-resumo da experiência de Caliwood, Tudo Começou pelo Fim, uma das principais atrações da retrospectiva. Foi em 2012 que Luis Ospina resolveu contar as aventuras de vida, amor, cinema e morte daquele coletivo. Depois de iniciadas as filmagens, foi-lhe detectado um tumor, seguindo-se uma série de internações, quimioterapia, cirurgia e risco de morte. Ele continuou filmando no hospital, “roteirizado” pelo boletins médicos e ajudado pela mulher com um celular nos momentos em que ele estava desacordado.

A história dos seus colegas foi bem mais trágica. Andrés Caicedo, jovem escritor e cineasta prodigioso, suicidou-se aos 25 anos depois de muita droga e depressão. Carlos Mayolo, diretor e ator, morreu aos 61, inchado e entupido de cocaína e álcool. Ospina sobreviveu para contar, mas por pouco não perdia o jogo para a morte. O prólogo, com cenas de sua infância, é encantador.

O filme reúne num jantar amigos, colegas e ex-namoradas (nenhum deles se casou ou teve filhos), recolhe lembranças, depoimentos de várias épocas, cartas, filmes domésticos, making ofs e cenas de diversos filmes do grupo. Revisitam antigas moradas e o cinema em que faziam o cineclube, agora transformado em igreja evangélica.

Fala-se de modo de vida (viveram juntos como hippies num prédio chamado Ciudad Solar, consumiam drogas e viviam em festas), amores, luto e formas de produção. A casa de Ospina, de família rica, era ponto de encontro e produção do grupo.

O fato de ter montado o filme depois do período de doença grave pode ter levado Ospina a uma certa condescendência com o material. Tudo se alonga além da conta, os detalhes de menor importância atravancam a narrativa, coisas se repetem. Até mesmo a busca da emoção nas recordações chega a um ponto não muito condizente com a irreverência e o olhar crítico que Ospina sempre lançou aos clichês do documentário.

A impressão que fica é de um recuerdo extenso e um tanto verborrágico. Terão as estrelas de Caliwood formado de fato um movimento? Constituíram o que se pode chamar de uma geração do cinema colombiano? Tudo é contado muito “de dentro” para que eles mesmos saibam responder.

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