Apocalipse motoqueiro

Gostemos ou não do filme, é preciso reconhecer que MOTORRAD é uma façanha pioneira no cinema brasileiro. Como filme de ação pura, só se avizinha de “Reza a Lenda”, que era muito mais pretensioso e muito menos efetivo. Não me recordo de outro exemplo em que os recursos audiovisuais fossem empenhados de tal maneira na provocação de impacto. É filme, portanto, para se ver em tela grande e com som potente.

A primeira sequência de lenta preparação, quando o garotão Hugo tenta roubar um carburador para equipar sua moto (o pecado original?), funciona como a inspiração prolongada que antecede um sopro violento. Hugo finalmente é aceito no grupo de motoqueiros do irmão mais velho, que parte para uma jornada de diversão na Serra da Canastra (MG), um mar de pedras beirando o sobrenatural.

A camada alegórica se adensa quando o grupo decide abrir passagem num muro de pedras e assim penetra em âmbito possivelmente transcendental. O perigo não demora a dar as caras na forma de um quarteto de motoqueiros embuçados (cavaleiros do apocalipse?) disposto a dar o fim mais horrendo possível a cada um dos jovens aventureiros. Em paralelo, há a figura da moça do ferro-velho, por quem Hugo se enamora, e que sugere uma mediadora entre os campos do real e do fantástico.

MOTORRAD pode ser uma das mais bizarras histórias de boy meets girl que o cinema já apresentou. Mas pode ser também uma parábola sobre os limites dos esportes radicais, que têm por característica flertar com a morte. Enfim, o vazio central do filme abre muitas possibilidades de interpretação para quem quiser pisar no acelerador mental. Mas terá que fazer isso por sua conta, sem muita ajuda do que está explicitado na tela.

Em sua incessante corrida pela sobrevivência, os personagens quase não falam. E é bom que seja assim, porque o pouco que falam não justifica expectativas muito favoráveis. Ao contrário de seus filmes anteriores, muito centrados na construção de personagens, Vicente Amorim não confere estofo aos de MOTORRAD. Eles são criaturas sem passado, sem futuro e sem emoção legítima. Tentam escapar como animais perseguidos por forças ocultas. Estamos próximos do movimento abstrato, um pouco como fazia Jerzy Skolimovski no seu visceral Essential Killing. O interesse principal é explorar a própria máquina do cinema no que ela pode produzir de choque e radicalidade.

Para isso conta a fotografia esplêndida de Gustavo Hadba em tonalidades góticas, cores dessaturadas que namoram o preto e branco, e ávida por tomadas virtuosísticas aproveitando-se das locações impressionantes e da iconografia motoqueira. É bem verdade que muito da sensação de velocidade e rudeza vem não propriamente da filmagem, mas de uma montagem acelerada e de um trabalho de som (música e ruidagem) nunca menos que hiperbólico. Em vários momentos, aliás, a busca do impacto sonoro soa como mero blefe para manter a plateia refém do ritmo pretendido. O simples acender de um lampião pode vir com um estrondo.

À primeira vista, a experiência um tanto extrema de Vicente Amorim confirma seu lugar de exceção no cinema brasileiro contemporâneo. Eis um realizador mais empenhado no artesanato dos gêneros do cinema do que na criação de uma assinatura autoral identificada com as tradições da nossa filmografia. À segunda vista, MOTORRAD já aparece como uma contribuição corajosa, ainda que imperfeita, a um cinema brasileiro de corte universal.

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