O “bom” ladrão

Quantos de nós, em algum momento da vida, já não se sentiu tentado a surrupiar um livro de alguma biblioteca ou livraria? Quem nunca cogitou a justificativa de que roubar um livro, afinal, não é bem um crime, mas uma travessura inocente, uma transgressão bem intencionada? Foi assim que Laéssio Rodrigues de Oliveira iniciou sua “carreira” (o termo é dele), furtando revistas com capas de sua idolatrada Carmem Miranda. Hoje Laéssio está preso pela quinta vez pelo roubo de centenas de livros raros em diversas instituições. Sua história é contada no documentário CARTAS PARA UM LADRÃO DE LIVROS.

A notícia de que o filme estava sendo feito foi recebida com críticas pela classe bibliotecária, revoltada com uma possível glamourização do personagem. Não faltavam razões para essa preocupação. Laéssio, de fato, não é um ladrãozinho qualquer. Ex-estudante de Biblioteconomia, inteligente, loquaz e amoral, sua relação com os livros é um misto de fascinação, fetichismo e oportunismo. No filme, rodado entre um encarceramento e outro desde 2013, ele dá mostras de todas essas facetas e muito mais. Entre as excentricidades com que se diverte está o destino que dá a sua urina, por exemplo.

CARTAS é mais um documentário da dupla Caio Cavechini-Carlos Juliano Barros, que já nos deu os ótimos Carne Osso, Jaci – Sete Pecados de uma Obra Amazônica e Entre os Homens de Bem. O eixo narrativo são os contatos de Barros com Laéssio em busca de um perfil jornalístico, que acabaria saindo no ano passado na BBC Brasil. As cartas trocadas entre os dois, muitas delas com Laéssio na cadeia, além de conversas pessoais sobre o filme, abrem uma fresta para o processo de construção do documentário. Em dado momento, Laéssio imagina que suas sucessivas prisões (“minha vida é um déja vu carcerário”) ajudam o filme a ficar mais interessante.

O ladrão de livros expõe sua lógica com uma naturalidade inabalável que mal disfarça o cinismo. O desejo de não ser “mais um na multidão” revela uma tendência megalomaníaca muito comum em mentes perigosas como a dele. Acredita que seus atos ajudam a melhorar a segurança das bibliotecas e os cuidados com as preciosidades do acervo. Não vê problema nenhum em subtrair bens de um estado que julga desmoralizado.

O contato com colecionadores e receptadores dos livros que roubava o dotou de um viés extremamente crítico em relação ao mundo da bibliofilia. Caio e Juliano bem que tentaram ouvir alguns desses nomes, mas sem êxito. A diretora do Arquivo Geral da Cidade do RJ, Beatriz Kushnir, e o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva pontuam como, respectivamente, vítima e justiceiro no caso. Desse núcleo dramático brota a impressão de que as bibliotecas sofrem de grande vulnerabilidade, enquanto a polícia, nesse cenário como em tantos outros, só consegue botar a mão nos agentes frágeis e nunca nos beneficiários mais poderosos.

CARTAS não glamouriza Laéssio, mas tampouco o julga. Expõe a inconsequência de um homem que chegou a enriquecer enquanto deixava os rastros de seus crimes refulgindo atrás de si. Um homem que tem devotado sua destreza e sua cultura tanto a roubar livros quanto a ajudar outros presos e conquistar “maridos” nos presídios por onde passa. Personagem complexo, que esse filme habilidosa e honestamente revela até o ponto em que seu enigma permite folhear.

 

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