A mãe de todas as remoções

Quase todas as ações de resistência contra as remoções de comunidades no Rio de Janeiro para dar lugar às obras das Olimpíadas de 2016 se reportaram, de alguma maneira, à derrubada do Morro do Castelo, a mãe de todas as remoções no Rio. O chamado Morro do Castelo de São Sebastião, local fundador da cidade, foi “arrazado” (conforme grafia da época) em 1922, depois de décadas de polêmicas.

Para seus detratores, o morro prejudicava a ventilação da cidade, era fonte de doenças e sinônimo de atraso. Para os defensores, queria-se apenas afastar os pobres do Centro e dar à região feições mais condizentes com o jargão “A cidade civiliza-se”. Enfim, um projeto de embranquecimento e higienização do Rio de Janeiro – pensamento que, aliás, não está de todo extinto.

Depois de muito ser citada em filmes, essa história emblemática ganha um documentário de longa-metragem só para ela. O DESMONTE DO MONTE é um filme didático-crítico que coloca a demolição do morro já como extensão do processo de exploração colonial. Os 20 minutos iniciais são consumidos com um arrazoado sobre a exploração de índios e escravos africanos pelos poderes da colônia. Segundo o texto de narração – que não apresenta fontes bibliográficas nem o aval de historiadores –, a fundação do Rio de Janeiro foi baseada no estímulo à rivalidade entre tribos indígenas. “Os índios foram pacificados através da opressão”, diz a voz da atriz Helena Ignez.

O filme discorre sobre a rede de interesses em torno da derrubada do morro, inclusive do próprio prefeito Carlos Sampaio, que era sócio da empreiteira encarregada da obra. Estende-se também no tema das especulações e do folclore a respeito de tesouros dos jesuítas supostamente enterrados nas entranhas do monte. Ao que se sabe hoje, ou os tesouros foram encontrados e abocanhados por quem tinha acesso, ou nunca se encontrou nada além de galerias subterrâneas cheias de câmaras funerárias e instrumentos de tortura.

O tesouro maior que vem à tona em O DESMONTE DO MONTE é um tesouro iconográfico. Fotografias e filmetes da primeira metade do século, em número abundante, mostram imagens raras da região central, das obras de demolição e de figuras populares. As cenas de ondas chicoteando violentamente as balaustradas do Flamengo, as fotos aéreas do espaço aberto com o desaparecimento do morro e as tomadas da Exposição Internacional de 1922, embora não sejam inéditas, surtem um efeito poderoso quando reunidas como aqui.

Esse documentário é mais um filhote da família Sganzerla. Narrado por Helena Ignez (e algumas vozes adicionais), foi pesquisado, dirigido, produzido, roteirizado e montado por sua filha, Sinai Sganzerla, que ainda selecionou a trilha musical e até assina alguns temas. O bom (e inusitado) uso de música do hitchcockiano Bernard Herrmann e de um Cartola bem sacado para encerrar o filme é trunfo que joga a seu favor.

A todo o discurso organizado por Sinai, poderíamos acrescentar que as terras do Morro do Castelo continuam existindo por baixo de nossos pés quando passamos, por exemplo, pelo Aterro do Flamengo, as bordas da Lagoa Rodrigo de Freitas e as proximidades do Jardim Botânico. Mas um pedaço importante da alma original do Rio se perdeu.

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