Viver e amar com o vírus

TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER – documentário de Emilia Silveira tem estreia especial neste sábado, 4 de maio, às 10h30, no Cine Odeon (RJ) com entrada franca.

Um jovem professor, uma passista de escola de samba, uma transexual ex-prostituta, uma ativista da prevenção, uma Youtuber e um poeta – estes são os seis personagens reunidos por Emilia Silveira no documentário TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER. Em comum, o fato de serem soropositivos e estarem vivendo e amando como outros quaisquer do planeta.

O filme, realizado no ano passado com apoio do Ministério da Saúde, tem o objetivo claro de combater o preconceito que, mesmo depois de quase quatro décadas de avanços e esclarecimentos, ainda não distingue soropositividade de Aids e enxerga o HIV como uma peste social. Os entrevistados por Emila, pertencentes a classes sociais, faixas etárias, níveis culturais e credos religiosos diferentes, adquiriram o vírus em circunstâncias distintas, seja por práticas sexuais, contágio com parceiros infectados ou consumo de drogas.

Ao narrar seus casos particulares, eles contam histórias em parte semelhantes, envolvendo a exposição da homo/transexualidade, a revelação da infecção (“uma segunda saída do armário”, como chama um deles), a busca de cura, eventuais perdas e decepções amorosas e a reinvenção da vida na condição de soropositivos. Dois mencionam pensamentos suicidas no passado, três se tornaram ativistas da causa, quatro aparecem na companhia de seus parceiros atuais.

Os seis personagens me pareceram de interesse crescente à medida que se sucedem na tela. Vão dos mais monocórdicos aos mais vivazes, com histórias de vida que vão ganhando em densidade, concluindo com o poeta que vocaliza uma visão mais geral da questão.

Contudo, a opção radical de deixar todos os depoimentos (não caracterizados como entrevistas) em off, com as pessoas envolvidas em atividades do seu dia a dia, a meu ver retirou um pouco da força dos relatos. As vozes desencarnadas, se abrem espaço para a eloquente fotografia de Jacques Cheuiche, também resfriam nosso contato com as sensibilidades em ação, distanciando-nos. Da mesma forma, o título, inspirado num texto de Caio Fernando Abreu, é mais cifrado do que pediria o filme.

Isso posto, cabe destacar a importância desse trabalho de elucidação e utilidade pública a partir não de conceitos e estatísticas, mas de histórias humanas concretas.

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