A brava do Brasil

LIVRE PENSAR – MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES – CINEBIOGRAFIA

“Eu acreditei que o Brasil ia ser uma democracia e uma civilização original nos trópicos”. A afirmação de Maria da Conceição Tavares, citada logo no início de sua cinebiografia, soa com particular melancolia nos dias que correm. O documentário estreia no Canal Curta! nesta quinta, 1/8, às 20h40.

LIVRE PENSAR – MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES – CINEBIOGRAFIA é mais um opus de José Mariani em sua documentação da economia brasileira. Ele já fez O Longo Amanhecer, cinebiografia de Celso Furtado, e Um Sonho Intenso, sobre as transformações no processo sócio-econômico com base no pensamento de economistas e historiadores. Conceição era um deles. Agora ganha um filme só sobre ela.

Nada mais justo. Personagem carismática, tem uma trajetória fascinante desde que chegou ao Brasil aos 23 anos, em 1954, fugindo da ditadura de Salazar, e logo embarcou na vaga desenvolvimentista e modernizadora do governo Kubitscheck. Por meio de depoimentos dela própria, de filhos e amigos, Mariani evoca seu itinerário pela intelectualidade comunista brasileira, a brilhante participação na CEPAL, o exílio no Chile, a volta ao Brasil para lecionar na Unicamp, a prisão no auge da ditadura, a entrada para a política no PMDB, o papel de “musa do Plano Cruzado”, a passagem para o PT e o “adoecimento” com o golpe contra Dilma Rousseff.

Nesse desenho, Conceição aparece como um esteio de resistência na defesa das ideias progressistas na economia, enquanto tantos de seus ex-parceiros – especialmente os que integraram o PSDB – se bandeavam para a direita conservadora e privatista. Seu leque colorido sempre oscilou entre Celso Furtado e Marx.

Os guias para delinear esse percurso são os seus célebres textos, apresentados e discutidos sucintamente por outros economistas, alguns dos quais seus discípulos, como Aluísio Mercadante. Na academia ou na política, Conceição se orgulha de nunca ter deixado de ser professora. As poucas cenas de suas aulas, incluídas no filme, dão uma ideia do prazer que terá sido vê-la esbravejar suas lições críticas de economia, atentas à desigualdade social, aos padrões de crescimento excludentes e à submissão dos países pobres aos mercados desenvolvidos.

“Eu fiquei brava no Brasil”, garante a portuguesa de Aveiro, contrariando a fama brasileira de adocicar o mundo. O filme de José Mariani é um retrato sucinto e acurado dessa mulher franca e independente, que impõe suas ideias pela força da convicção.

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