O festival mais saboroso do país

O Cine Brasília serviu ao público do DF, nos primeiros dias de agosto, a décima edição do Slow Filme – 10º Festival Internacional de Cinema e Alimentação. Inspirado no movimento Slow Food, o evento criado originalmente em Pirenópolis (GO) por Gioconda Caputo, Sergio Moriconi e Carmem Moretzsohn, ressalta as relações entre cinema, gastronomia, política e meio ambiente.

Meu amigo Paulo Lima, jornalista e escritor de múltiplos talentos, frequentou o festival e publicou no seu Facebook resenhas de seis documentários exibidos com exclusividade. Reproduzo os textos aqui para ampliar sua repercussão e constituir uma memória mais facilmente acessível.

EM BUSCA DOS SABORES PERDIDOS

Quem costuma associar a imagem de Cuba apenas aos cenários turísticos de Havana e à sua rica tradição musical, ou mesmo à sua literatura, tem uma grata – e saborosa – surpresa ao assistir ao documentário Histórias da comida cubana.

Esse filme exibido na abertura do 10 Slow Film, o Festival Internacional de Cinema e Alimentação, que este ano está sendo realizado em Brasília, mostra as muitas nuances da pequena ilha caribenha, tendo como foco sua variada culinária.

A película resulta do olhar de Asori Soto – que a narra num bom inglês -, expatriado cubano que abandonou seu país depois do chamado “Período especial”, momento que corresponde à crise econômica em Cuba, provocada pelo fim da ajuda soviética.

Asori empreende uma viagem sentimental ao universo de sua infância, depois de dez anos morando nos Estados Unidos, e nesse itinerário persegue as comidas que não chegou a conhecer, como se fosse um Proust em busca dos sabores perdidos.

Para tanto, percorre a rica geografia do interior da ilha, em alguns episódios que compõem a estrutura do longa-metragem, revelando verdadeiros oásis fora do radar do turismo convencional.

Em sua jornada, Asori encontra o pescador que vive feliz num lugarejo abandonado que, no passado, reuniu cubanos e russos na corrida nuclear. Ou o casal em solitária comunhão que prepara lautas refeições sem estipular preço – o cliente é quem dá o lance.

Uma dessas viagens é à lendária Sierra Maestra, de onde Fidel e Che desceram para fazer história. Lá vive um cafeicultor cujos dotes ele já começa a ensinar ao netinho.

Contudo, o tour gastronômico de Asori traz à tona não apenas as delícias recônditas de Cuba, mas o entorno de uma cultura que ainda ergue como valores o senso de amizade e comunidade em meio à pobreza material. E essa é a maior riqueza oferecida por aqueles chefs que aprenderam seus ofícios na marra, impulsionados pela necessidade, mas sem perder a humanidade jamais.

 

TOMATE PRA QUE TE QUERO

Sabe aquele delicioso molho de tomate italiano que você adora? Tem o toque chinês. O mundo globalizado não é o que pensamos.

O tomate virou uma mercadoria tão cobiçada quanto aquelas mais tradicionais, como por exemplo a gasolina, movimentando uma indústria poderosa que tem como pólos principais a China, a Itália e os Estados Unidos.

Isso faz com que não seja mais possível para o consumidor atestar a origem de um apetitoso pomodoro seguindo apenas o rótulo do produto. Pode se tratar de um “chinodoro”.

É o que descobrimos ao assistir ao documentário O império do ouro vermelho, produção francesa dirigida por Jean-Baptiste Mallet e Xavier Deleu, exibido na décima edição do Slow Film, o Festival Internacional de Cinema e Alimentação, que este ano se realiza em Brasília.

O filme é conduzido por Jean-Baptiste Mallet, jornalista que empreendeu uma cruzada investigativa em torno do que se convencionou chamar de “o império do ouro vermelho”, uma alusão à cor do tomate.

Em sua jornada, Jean-Baptiste mapeou os tentáculos daquele império. Na China, visitou as instalações de complexos industriais como o do General Liu e seus números desmesurados, como tudo naquele país.

Nos Estados Unidos, mergulhou na história da Heinz, a todo-poderosa corporação da indústria alimentícia, responsável por introduzir, bem antes de Henry Ford, a noção de produção em série.

O que a investigação de Jean-Baptiste nos revela é a essência (sem trocadilho) dos métodos capitalistas por trás de suas ambições. Na China, bem como na Itália e nos Estados Unidos, riquezas se erguem sobre a miséria do trabalho escravo. A automação é utilizada sem complacência. E estratagemas inescrupulosos são utilizados para maximizar lucros.

É o capitalismo da destruição a pleno vapor. Mudam apenas os produtos, mas a forma se mantém. Mesmo no caso de um aparentemente inofensivo e suculento tomate.

 

EPOPEIA NOIR

Senhor maionese, documentário de 2016 do diretor australiano Trevor Graham, é mais uma prova de que o Holocausto é um tema inesgotável.

Incluído na programação do Slow Filme, o Festival Internacional de Cinema e Alimentação, em sua décima edição, a obra pode ser considerada uma proeza do gênero. Não apenas pelo benefício da incrível história que conta, mas pela forma como essa história é contada.

E o que Trevor Graham garimpou é a epopeia da família do cineasta e artista gráfico Philippe Mora, sobrevivente do nazismo.

Georges, pai de Philippe, era um judeu alemão que, fugindo de Hitler, instalou-se ainda jovem na França. Com a tomada de Paris pelos nazistas, Georges entra para a Resistência Francesa e ajuda a salvar a vida de milhares de crianças judias, enviando-as à fronteira suíça com a ajuda do mímico e lendário ator Marcel Marceau. O expediente que utilizavam para burlar a vigilância dos policiais do Reich era esconder os documentos dos fugitivos em baguetes recheadas de maionese.

O preparo da maionese fazia parte da tradição gastronômica da família de Georges, que, graças a isso, era conhecido como “senhor maionese”.

Mirka, a mãe de Philippe Mora, era uma artista judia de origem lituana cuja família emigrou para a França fugindo do Nazismo.

Mirka e Georges vão se conhecer em Paris no imediato pós-guerra, e da relação nascerá Philippe Mora.

Temendo um retorno do nazismo, o casal acaba emigrando para Melbourne, na Austrália, onde erguem uma vida glamourosa de artistas plásticos e donos de restaurante.

Para narrar tão longo périplo, Trevor Graham combina vários recursos, tornando o filme uma peça vibrante do começo ao fim.

Ao investigar o passado da família, Philippe Mora decide registrá-la numa história de quadrinhos. Desenhista talentoso e realizador de mais de 40 filmes, ele se põe em marcha e visita os cenários percorridos pelos pais.

É na combinação de vários dispositivos – as imagens dos quadrinhos em progresso, trechos dos filmes de Philippe Mora, arquivos históricos e elementos de docudrama, com o próprio Philippe interpretando um detetive noir – que o documentário de Trevor Graham cria camadas de representação.

São estes recursos entrelaçados que fazem de Senhor maionese um documentário tão fascinante, talvez o mais vibrante já apresentado no Slow Film.

 

OS VILÕES DA TERRA

A relação dos trabalhadores que cuidam da terra se manifesta numa atitude de devoção quase religiosa. Afinal, a terra é a mãe dadivosa que nos dá os alimentos e, portanto, a vida.

Esse elo visceral é o que mostra o documentário I villani, produção italiana dirigida por Daniele de Michele e exibida no Slow Film – Festival Internacional de Cinema e Alimentação -, em sua décima edição.

O filme mostra a rotina de quatro trabalhadores, sendo um pescador, na incansável labuta de sol a sol, e dá-lhes voz. A beleza das paisagens do interior da Itália confere ao longa uma plasticidade inebriante, mas por trás desse bem-estar se desenvolve uma luta diária contra o tempo. Até quando aquelas atividades resistirão aos avanços tecnológicos?

O modo como cada um dos trabalhadores expõe sua ligação quase simbiótica com a terra e o mar mostra plena consciência do que seus ofícios representam: a distinção entre o autêntico, saudável, e o massificado, impessoal, sem alma.

E para permanecerem nesse limite de qualidade eles operam como transgressores, vilões, apartados do ritmo e dos padrões determinados pelo mercado. Diz um dos personagens, enquanto prepara seu queijo artesanal: “A qualidade não está nas leis, está no proibido.”

Para esses trabalhadores, o contato com a terra e o mar se estabelece como se cada elemento fosse a extensão do humano. Soa como reflexo dessa humanidade ver aquele mesmo trabalhador chamar um de seus animais, um burrico, pelo nome, Gennarino, e ter chorado pelo sacrifício imposto certa vez às suas vacas.

Esses pequenos atos de amor à terra, expressos com muita desenvoltura, dão à película uma intensa carga poética – poesia, aliás, presente literalmente nos hábitos de Salvatore Fundaró, um dos trabalhadores, que nos mostra seus dotes de cantor, violonista e poeta.

Trata-se de um documentário que nos dá a real dimensão do que nos faz verdadeiramente humanos, tornando também nosso cada torrão daquele universo distante, porém tão próximo.

 

ERRÂNCIAS DO CORAÇÃO

Jiholm é um chef coreano famoso com um diferencial sobre seus pares. Ele costuma percorrer a Coreia do Sul em busca de plantas comestíveis não convencionais, que transforma em pratos deliciosos.

Com tal característica, esse gourmet andarilho é conhecido em seu país como “chef errante”. Este é o título, por empréstimo, do documentário O chef errante, dirigido por Hye-Ryoung Park, que o Slow Film – Festival Internacional de Cinema e Alimentação – mostrou no penúltimo dia de sua décima edição.

O filme capta Jiholm em um de seus deslocamentos à cata de raras iguarias. No que pareceria mais uma cinebiografia de chef estrelado, o longa-metragem de repente sofre uma torção narrativa. Das errâncias culinárias, passa a expor as errâncias sentimentais de Jiholm, dando a ver uma faceta de sua vida privada.

Esse chef, de ar tranquilo e resoluto aos 50 anos, é órfão de mãe, e, por uma dessas contingências trágicas do destino, igualmente órfão de sua mãe adotiva. Ambas as mães morreram num espaço de tempo que vai da infância à adolescência de Jiholm.

Em uma de suas caminhadas exploratórias, Jilholm conhece um casal de idosos, e se afeiçoa à esposa octogenária, adotando-a como se fosse uma terceira mãe.

Esse ponto de virada é que irá assegurar a chave dramatúrgica do documentário, acrescentando-lhe camadas de afetividade e sensibilidade, como se adornado por um delicado arranjo floral.

Imerso nesse mecanismo de transferência, Jilholm paparica sua nova mãe, a afaga e a protege, preparando para ela deliciosas refeições.

O filme de Hye-Ryoung Park é composto de elipses, com longos silêncios preenchidos pela linguagem sensorial dos toques e olhares, como se estivéssemos diante de um emocionante poema de amor filial, cujo final é tão belo quanto surpreendente.

 

FLORES DO ÉDEN

Um belo jardim não é apenas um jardim. Por trás dos perfumes e da exuberância de cores está o trabalho de pessoas como Jan Freriks, holandês de 85 anos, mestre podador, personagem principal do documentário Retrato de um jardim.

Exibido no último dia do Slow Film – o Festival Internacional de Cinema e Alimentação, que este ano foi realizado em Brasília -, o longa dirigido por Rosie Stapel é uma pequena jóia de amor e dedicação a um ofício.

Ao lado de seu ajudante Daan van der Have, Jan exerce suas atividades diárias no jardim instalado dentro de uma propriedade. Durante um ano, Rosie Stapel (cujo primeiro nome soa como uma feliz coincidência, em se tratando de um tema sobre flores) os observará.

A estrutura do filme segue o cronograma das quatro estações do ano, mas o tempo de verdade pertence às plantas, cujos nomes são mencionados o tempo todo em pequenas legendas, como um catálogo.

A chave do trabalho de Jan, por ele executado com a precisão de um ourives, está no respeito a esse tempo. “Não podemos apressar as coisas”, ele ensina a Daan, em meio a afazeres miúdos que, em suas mãos, ganham toques artísticos, como um Vermeer manejando seus pincéis.

A rotina se desenvolve num clima de camaradagem, temperada por pérolas de bom-humor e sabedoria da parte de Jan, em meio ao vaivém de jovens empregados. Aqui e ali, Jan chama a atenção para sua finitude, e instiga um dos jovens a fazer ele mesmo determinada tarefa, pois em poucos anos o mestre não estará mais ali.

Mas nem tudo são flores naquele pequeno paraíso suspenso no tempo de uma película. Jan observa que, por causa do avanço da indústria na Holanda, a agricultura perdeu espaço, e com ela se vão também saberes como o dele. Daí, para preservá-los, Jan decidiu registrar tudo em livros.

O filme de Rosie Stapel é mais uma garantia de que exemplos como o de Jan Freriks perdurarão além do tempo efêmero de um jardim, como a seiva que nutre o que é belo e humano.

(Textos de Paulo Lima)

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