Sutilezas em campo, ambiguidades na arte

Notas sobre ASPIRANTES e FERNANDO

ASPIRANTES é tanto um filme sobre futebol quanto 2001 – Uma Odisseia no Espaço é sobre naves espaciais. No primeiro longa de Ives Rosenfeld, o campo e a bola, muito bem filmados, servem apenas como arena onde os dramas do protagonista explodem fisicamente. Fora dali, Júnior é um rapaz calado, retraído e inseguro quanto ao seu futuro como jogador de um pequeno clube de Saquarema, na Região dos Lagos fluminense, e como futuro pai de família surpreendido pela gravidez da namorada.

No subtexto dessa trama quase inexistente de tão minimalista, há uma pulsão homoafetiva não resolvida que instabiliza ainda mais o rapaz na relação com seu amigo de infância, o craque do time e objeto de uma admiração gradativamente convertida em inveja.

Rosenfeld toca a bola com uma calma e uma segurança admiráveis para um longa de estreia. O elenco, preparado por Pedro Freire, também corroteirista, sintoniza com perfeição o naturalismo das conversas recheadas de silêncios e as discussões que precipitam os poucos acontecimentos. O roteiro administra com sabedoria as lacunas sobre a consciência de Júnior e nos mantém ligados em cada inflexão do ótimo ator Ariclenes Barroso. Junte-se a isso uma cinematografia admirável de Pedro Faerstein, que confere suavidade de cores e de movimentos a uma história mais de sutilezas da sensibilidade do que de chutes e dribles. De maneira geral, a equipe reúne a fina flor do cinema carioca atual.

ASPIRANTES tem a coragem de apostar na contenção e na insinuação. Deixa boa parte do entrecho a cargo da imaginação do espectador. Os jurados de festivais têm reconhecido esses valores: o filme já venceu um prêmio para projetos em finalização no Festival de Locarno (Suíça), um prêmio da crítica na Mostra de SP e os de melhor direção, ator e atriz coadjuvante (Julia Bernat) no Festival do Rio de 2016. Ou seja, Ives Rosenfeld, celebrado técnico de som, já passou na “peneira” e entrou para o escrete dos diretores profissionais.

 



FERNANDO é um filme ambíguo em vários sentidos. Seu personagem é Fernando Bohrer, um ator, educador e preparador de atores. Vemos Fernando orientar seus alunos no sentido de compreender o corpo como fonte de energia dramática e atuar, ele mesmo, num ensaio teatral. Aparece também em momentos da vida doméstica com seu companheiro, assim como consultando-se sobre uma irregularidade no funcionamento do coração.

Sem falas diretas para a câmera, parece que estamos diante de um documentário de observação. No entanto, nada é exatamente como vemos. A médica que o consulta é a atriz Carolina Virguez; o companheiro é o bailarino Rubens Barbot; e a moça que começa a organizar um livro sobre ele é, na verdade, Paula Vilela, uma das diretoras do filme junto a Igor Angelkorte e Julia Ariani.

Cabe perguntar se esse deslizamento do documentário para a ficção seria adequado para retratar a vida de um homem de espírito ligado à arte. Ou seria tudo somente uma estratégia de despistamento? As coisas estão assim para apreciarmos ou acreditarmos? Essa última pergunta pode soar obtusa e ultrapassada frente a todo o relativismo colocado pelo documentário contemporâneo, mas não consigo me furtar a ela. Pergunto-me, por exemplo, qual terá sido a razão de Fernando ter sido expulso da pequena cidade (não identificada) onde vivia cercado de garotos a quem ensinava práticas artísticas.

FERNANDO, realizado em 2017, pode ter sido influenciado pelo doc Esse Amor que nos Consome (2012), de Allan Ribeiro, protagonizado por Barbot e sua companhia de dança. É o que transparece de sua serena mise-en-scène do cotidiano e da simbiose entre arte e vida proposta pela direção a seus personagens. No entanto, o acúmulo de ambiguidades aqui não favorece uma aproximação mais efetiva do espectador.

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