Leopoldina, coração valente

Quando o público se levanta para aplaudir demoradamente a peça LEOPOLDINA, INDEPENDÊNCIA E MORTE, em cartaz no Teatro I do CCBB-Rio, o faz por diversas razões. Uma delas é a descoberta dessa personagem fabulosa, a arquiduquesa austríaca que veio para o Brasil casada com D. Pedro I, assinou a carta de independência (embora o marido ficasse com o mérito) e, apesar de monarquista, sonhava um futuro brilhante para o país. Um futuro com arte, escolas, inteligência – tudo isso que está em baixa entre os governantes atuais.

Outra razão para os aplausos são justamente os elos com a atualidade presentes no texto de Marcos Damigo (também diretor da montagem), inspirado em ensaio de Maria Rita Kehl e outros estudos históricos. Pensamos em Dilma, a terceira mulher a governar o país, depois de Leopoldina e Isabel. Pensamos na tragédia que restou para o pobre brasil de hoje. Pensamos também na velha fake news do quadro de Pedro Américo, que essa Leopoldina teatral denuncia, lamentando ter-se tornado nome de estação de trem, ferrovia e escola de samba que quase ninguém associa mais a ela.

Certamente se aplaude, talvez mais que tudo, a performance rutilante de Sara Antunes, cuja figura delicada se agiganta no palco com um repertório prodigioso de inflexões e gestos. No primeiro dos três movimentos (ou “fragmentos”), Sara vive uma imperatriz quase garota, deslumbrada e ao mesmo tempo incomodada com a novidade dos trópicos. O tom se aproxima da comédia. No segundo, Leopoldina discute com José Bonifácio (Plínio Soares) a situação da corte no pós-independência e a relação de confiança e amizade entre os dois. É a parte mais “intelectual” da peça, em que as questões política e conjugal da regente são contextualizadas. O terceiro movimento traz a imperatriz enferma e delirante, espezinhada pela traição do marido e escapando da gaiola temporal para se projetar no futuro do Brasil e no presente da plateia.

As palmas vão, ainda, para a participação da flautista e violoncelista Ana Eliza Colomar, cujos instrumentos “dialogam” com Sara em diversos momentos do espetáculo.

2 comentários sobre “Leopoldina, coração valente

    • Foi Leopoldina que presidiu a reunião em que se decidiu pela independência. Ela assinou a carta que foi enviada a Pedro I. Este a recebeu às margens do Ipiranga e ficou com o crédito de ter proclamado a independência.

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