A dor tornada arte

BABENCO – ALGUÉM TEM QUE OUVIR O CORAÇÃO E DIZER: PAROU em cinemas

O convite a Cao Guimarães para, junto à diretora Barbara Paz, burilar a estrutura final de Babenco – Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou me parece essencial para o resultado obtido. Podemos presumir que Cao imprimiu sua veia de poeta das imagens, sua preferência pelo fluido e pelo inconcluso nesse canto de amor a um homem que morre.

Barbara filmou momentos de Hector Babenco nos seus seis últimos anos de vida, boa parte deles passada em hospitais. Era um desejo dele, após ter chegado diversas vezes ao limiar do não existir. “Eu já vivi minha morte, só falta fazer o filme da minha morte”, diz ele entre as tantas ruminações gravadas por ela. Babenco lutava contra um câncer linfático desde os 38 anos, diagnosticado logo depois de fazer O Beijo da Mulher Aranha. Dali em diante, foi uma disputa entre a doença e a vontade de viver e filmar, sempre com “a sensação de que a grande obra não foi feita”.

O filme da morte já havia sido ensaiado como uma espécie de Oito e Meio hospitalar em Meu Amigo Hindu, no qual Willem Dafoe (produtor associado do filme de Barbara) vivia um alterego de Babenco. Cenas desse filme se juntam às de outros títulos do diretor para comporem um memorial cinematográfico que corre em paralelo às imagens da agonia de Hector e da ternura de Barbara. O pacto entre os dois me trouxe à memória o de Wim Wenders e um Nicholas Ray abatido pelo câncer em Nick’s Movie – Lightning over Water. Ambos até compartilham a presença de um barco chinês numa baía. À diferença que Barbara não empreende, como Wenders, uma reflexão sobre o próprio filme.

Aqui, pairamos na profundadade da superfície das imagens (todas convertidas para o preto e branco), nas reverberações sonoras esculpidas por O Grivo, nas vozes mais entreouvidas que ouvidas. É como se visitássemos um doente com pantufas nos pés para não fazer barulho, ao mesmo tempo em que fragmentos de sua vida desfilam aos nossos olhos. Hector dança Cheek to Cheek e Barbara, Singin’ in the Rain. Juntos até o fim, transformaram sua união em um filme dolorido que procura converter a dor em doce obra de arte.

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