Carlos Adriano sobre o novo livro de Sylvio Back

por Carlos Adriano   

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 18.3.21                                                                                                 

“Para mim, fotogramas embutem epigramas. Versos e takes comungam a mesma invisibilidade, esse apelo ao outro lado (beyond) da imagem e da palavra. O poema antevê o cinema!” Assim o (s)elo entre as duas artes é definido por Sylvio Back, que, aos 83 anos, lança em abril “Silenciário” (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina). Íntegra de uma das duas vertentes de sua poesia, com livros de 1988 (“Moedas de Luz”) a 2014 (“Kinopoems”), a obra tem por núcleo 35 poemas inéditos (“A Maior Diversão”).

A outra vertente é a poesia erótica, reunida em “Quermesse” (Topbooks, 2013), da estreia em 1986 (“O Caderno Erótico de Sylvio Back”) a 2007. Na esteira dos contos de “O Himeneu” (2019), prepara agora “Tesão não tem idade”, seleta de poemas lúbricos para a editora Escombros. “Logrei demarcar territórios, onde Eros e Tânatos trocam figurinhas e versos para encantar ou desencantar o leitor”, indica o autor. E explica: “Sem premeditar, produzi uma obra anfíbia. Uma, ancorada no fescenino, e outra, fruto de influxos da alma ferida diante dos revezes que pavimentam a vida, obra e a sobrevida de um cineasta no Brasil.” 

“Silenciário” reúne livros como “Yndio do Brasil: Poemas de Filme” (1995), “Traduzir é Poetar às Avessas” (2005), com versões do poeta negro Langston Hughes (1902-1967) e “Kinopoems” (2006/2014), sobre figuras de seus filmes “O Auto-Retrato de Bakun” (1984) – o pintor Miguel Bakun (1909-1963), “O Poeta do Desterro” (1999) – Cruz e Sousa (1861-1898), “Vida e Sangue de Polaco” (1982) – Paulo Leminski (1944-1989), aqui em “Leminskino (um filme para ser lido)”.

“Leitor voraz e veraz de poesia”, cuja estante é maior que a de livros de cinema, Back iniciou seus poemas aos 48 anos, após vinte filmes. Dos poetas de (p)referência, cita: Drummond, Bandeira, Cabral, Augusto de Campos, Auden, Cummings, Emily Dickinson, Sá-Carneiro, Breyner Andresen, Bashô, Wang Wei, Lezama Lima. Em “A Babel da Luz” (1992), filmou Helena Kolody (1912-2004), precursora do haicai no país. Back imagina a arqueologia: “quem sabe o poema nasceu rupestre, onde nas pinturas das cavernas podemos identificar tanto uma estrofe visual como uma imagem em movimento”.

Diretor de títulos clássicos e polêmicos do cinema nacional – “Lance Maior” (1968),“Aleluia, Gretchen” (1976), “República Guarani” (1982), “Rádio Auriverde” (1991) e “O Contestado: Restos Mortais” (2010) –, crê na conciliação: “como se, aparentemente, poema e cinema dormissem juntos e jamais tivessem trocado algum afago”. Para ele, filmar é como poetar e vice-versa. Tem pesquisado (em acervos de Brasil, Portugal e Itália) um novo filme sobre Murilo Mendes (1901-1975), autor de “A Poesia em Pânico”. 

“Não sou um poeta de sentimentos, mas de pressentimentos”, confessa. “Filme sem poesia é filme sem alma”, decreta, ao comentar a escassa magia no ofício que, em vez de lápis e papel no ato solitário, implica indústria onerosa e labor coletivo. Mas artes irmãs são imãs: “Cada poema e cada plano filmado resumem tamanho investimento formal e exorcização moral que sempre soam como o último. Como se a musa jamais fosse voltar à cena do crime.”

A obscena situação no país o provoca: “Quando as circunstâncias pisam nas minhas convicções humanistas, invisto num poemário antiutópico”. E atiça: “vivemos constantemente numa tremenda ressaca moral; por esperar o que jamais virá”, citando um verso de “Silenciário” – “a esperança é grotesca”.

A coincidência do começo de sua poesia com a dicção erótica “foi como um espanto existencial”. Há 35 anos, intimado por “incontornável tragédia familiar” em 1986, cometeu versos “ei­vados de viço e isentos de vício”, que o alforriaram “do preconceito contra o licencioso”, na comitiva de Safo, Ca­tulo, Ronsard, Bocage, Ber­nardo Guimarães e António Botto.

Um verso de Gregório de Matos dá título a um roteiro inédito, “impossível de habilitar a recursos incentivados”. Flor de vasta colheita em cinematecas, “Não Existe Pecado do Lado Debaixo do Equador” seria a estreia de Sylvio Back na seara do filme erótico: “uma colagem lúdica e explícita do cinema pornô do Brasil desde que surgiu, praticamente junto com a própria introdução do cinema entre nós”. Afeito a um cinema de confronto, o bardo não se conforma ao conforto silenciário.

Carlos Adriano é cineasta, doutor em audiovisual pela USP.

  • Silenciário
  • Autor: Sylvio Back
  • Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, 432 págs
  • Preços da edição impressa/@-book: a definir
  • Avaliação: ótimo

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