É Tudo Verdade: Presidente

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 14/04 às 19h00

por Paulo Lima

A astúcia dos lobos

A produção dinamarquesa Presidente aborda o histórico das eleições presidenciais de 2018 no Zimbábue. Por trás do pleito corre todo um roteiro de intrigas políticas envolvendo a herança de Robert Mugabe, o mais longevo dirigente daquele país africano. Ele se tornou primeiro-ministro em 1980, depois da independência do Zimbábue, e permaneceu no poder até 2017, quando foi deposto por um golpe militar e levado a renunciar ao cargo de presidente.

Após a queda, novas eleições são imediatamente convocadas tendo na disputa dois nomes:  Emmerson Mnangagwa, representante do continuísmo pelo partido ZANU-PF, embora se apresente como crítico de Mugabe, e Morgan Tsvangirai, pelo MDC, partido de oposição que tem como bandeira a mudança democrática. No entanto, Tsvangirai morre a menos de quatro meses das eleições. O advogado Nelson Chamisa, de 40 anos, ocupa seu lugar.

A câmera da diretora Camilla Nielsson assumirá desde o início o lado de Chamisa e seus assessores, que empreendem uma intensa campanha para conscientizar a população da necessidade de mudança visando à superação da crise econômica que atingia o país. Durante 37 anos, Mugabe se manteve no poder por meio de eleições fraudulentas. A marca do antigo regime paira como uma ameaça constante. Observadores da União Europeia e dos Estados Unidos são convidados para acompanhar o desenrolar da votação.

A luta de Chamisa e seus partidários para assegurarem a lisura do processo dão um ritmo de suspense ao filme. Ele se apresenta como um líder moderno, que enfrenta o governo corrupto de Mugabe desde os tempos de ativista estudantil. Assim Chemisa resume sua visão democrática: “É mais fácil pegar em armas, mas acreditamos numa forma civilizada de lidar com os problemas políticos.”

À medida que a disputa se torna acirrada, as ações de Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, deixam claro que ele é uma mera perpetuação da política de Mugabe, o que vale a ironia de Chamisa: os lobos continuam sendo lobos. Suas suspeitas se confirmam quando ele recebe ameaça de morte e é forçado a se esconder. Sua combativa equipe se mantém na linha de frente.

As eleições se realizam e, como já suspeitavam Chamisa e seus assessores, existem indícios de mais uma fraude no ar. A divulgação do resultado da votação atrasa, escancarando a parcialidade da comissão eleitoral, responsável pelo processo. A população se revolta e é massacrada por forças policiais.

O documentário põe em evidência uma constatação e um alerta. Primeiro, a constatação: Robert Mugabe foi um dos responsáveis pela independência do Zimbábue, tendo sido considerado um herói revolucionário. O longo tempo no poder o corrompeu. E o alerta: o excessivo acúmulo de poder finda por impedir qualquer aspiração democrática, eliminando toda tentativa de exercício da soberania popular.

Paulo Lima

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s