Mostra SP: “A Távola de Rocha”

Um vanguardista clássico

O cineasta português Paulo Rocha (1935-2012) é objeto de uma retrospectiva na 45ª Mostra de Cinema de São Paulo. Algumas coisas o ligam ao Brasil. Ele viveu a infância no Rio de Janeiro, para onde seu pai se mudou e onde permanece até hoje seu irmão Jorge. O desejo de mudança é uma constante em sua obra. Seu último filme, Se eu Fosse Ladrão, Roubava é uma autobiografia oblíqua sobre um pai obcecado pela ideia de emigrar para o Brasil.

O Novo Cinema Português, do qual ele é um dos três maiores nomes, emergiu simultaneamente ao Cinema Novo brasileiro. Para além do sobrenome, Paulo e Glauber se encontraram em diversos festivais internacionais nos anos 1960. A influência do brasileiro transparece no segundo longa de Paulo, o clássico Mudar de Vida. Glauber sugeriu Geraldo Del Rey como protagonista, e a aldeia de pescadores em que se passa o filme tem semelhanças com o Nordeste de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Mais tarde, Paulo escalaria Lima Duarte no papel principal de O Rio do Ouro (1998).

A carreira desse criador irrequieto é relembrada de maneira não muito convencional no documentário A Távola de Rocha, de Samuel G. Barbosa. Não há um aporte didático ou cronológico, mas um fluir de observações e lembranças colhidas diretamente pelo documentarista ou em arquivos. A identificação dos trechos de filmes e dos falantes, em geral, só é feita nos créditos finais – o que nos convida a ver tudo como um único “corpo”, em que autor, obra e referências se misturam.

Destaque especial vai para a paixão de Paulo Rocha pelo Japão, que o levou a aprender japonês e ocupar o posto de adido cultural em Tóquio por sete anos. Nos anos 1980, lá filmou A Ilha dos Amores e A Ilha de Moraes, ambos sobre o escritor Wenceslau de Moraes, que trocou Portugal pelo Oriente em fins do século XIX. Antes disso, tentou realizar um filme sobre a introdução das armas de fogo no Japão, um feito português.

Geraldo Del Rey e Isabel Ruth em “Mudar de Vida”

Alguns exemplos das invenções cênicas marcantes de Paulo Rocha aparecem no documentário. Depois de insuflar o frescor da novidade sessentista em Verdes Anos (1963) e Mudar de Vida (1966), ele adotou formatos mais clássicos, às vezes operísticos, mas carimbados com o distintivo de planos-sequência super elaborados, uso agudo da profundidade de campo e uma frequente disposição para testar novos dispositivos. “Eu quero que o filme corrija as minhas ideias, que em geral são más”, afirmou numa entrevista. A escritora Regina Guimarães, argumentista de vários de seus filmes, dá uma chave interessante: Paulo pensava os filmes a partir dos lugares onde rodava, o que cancelava ideias preconcebidas.

O documentário de Samuel G. Barbosa oferece um bom material, embora sua ordenação nem sempre favoreça uma compreensão sintética da trajetória de Paulo. Algumas escolhas estéticas são bastante idiossincráticas, como filmar uma longa conversa de Paulo na contraluz, sem que se veja seu rosto (nada me garante que não seja uma filmagem alheia); ou tomar parte importante do depoimento da sua atriz-fetiche Isabel Ruth a uma distância quase quilométrica. “Acho que o Paulo nunca filmou um beijo”, arrisca Isabel.

O modernista Paulo Rocha foi um vanguardista clássico, se é que se pode dizer isso de alguém. Ver ou rever seus filmes é um dos melhores itens no menu da 45ª Mostra.

>> A Távola de Rocha está na plataforma Sesc Digital até 3 de novembro

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