Mostra SP: “Pequena Palestina – Diário de um Cerco”

Fome e morte no gueto sírio

A guerra civil da Síria tem originado alguns dos documentários mais dolorosos dos últimos tempos. Depois de Os Últimos Homens em Aleppo e Para Sama, é chegada a vez de conhecermos Pequena Palestina – Diário de um Cerco (Little Palestine – Diary of a Siege). Não é fácil confrontar as cenas filmadas por Abdallah Al-Khatib entre 2013 e 2015, período em que o bairro de Yarmouk, em Damasco, ficou sitiado pelo regime de Bashar al-Assad.

Yarmouk abrigava então um dos maiores campos de refugiados palestinos do mundo. Considerado refúgio de rebeldes, foi cercado e aos poucos privado de alimentos, água, medicamentos e eletricidade. A população civil passou a viver literalmente à míngua, alimentando-se de cactos, ervas colhidas em terrenos baldios, água com temperos e eventuais caixas de mantimentos entregues pela ONU.

Al-Khatib, nascido em Yarmouk, trabalhava como coordenador de atividades para a ONU desde o início da guerra. Quando o cerco começou, ele se pôs a gravar a situação do bairro, usando para isso uma câmera herdada de um amigo, Hassan Hassan, preso e morto sob tortura. Acompanhava sua mãe, enfermeira voluntária que cuidava de idosos desamparados. Recolhia depoimentos de crianças sobre seus sonhos de paz e fartura. Documentava atos de resistência musical nas ruas ameaçadas por bombardeios. Registrava tentativas desesperadas de romper as barricadas, resgates de feridos e sobretudo imagens da fome que assolou Yarmouk, transformando o lugar numa espécie de sucursal do gueto de Varsóvia.

Os quadros silenciosos de rostos abatidos pela tristeza e a fome extrema são de cortar o coração. As pessoas chegavam a rogar a Alá por uma morte trazida pelos ataques aéreos em troca da morte lenta por inanição. Contaram-se 181 pessoas mortas de fome durante o cerco, algumas das quais passaram pela câmera de Al-Khatib. Uma conversa dele com uma menina que catava ervas para comer enquanto mísseis explodiam nas redondezas é uma das cenas mais avassaladoras que o cinema do real já captou.

Em meio a esse cenário dantesco, o diretor nos oferece pílulas de suas “40 Regras para o Cerco”, aconselhamentos poéticos que ensinam a procurar sentido para sobreviver sem perder o espírito. São frases que ecoam na consciência do mundo e elevam o teor de emotividade desse documentário extraordinário.

Al-Khatib e sua mãe foram expulsos pelo Estado Islâmico em 2015 e vivem hoje na Alemanha, onde ele organizou o material para o filme. O campo de refugiados de Yarmouk não existe mais. Pequena Palestina vai ficar como um testemunho implacável dos horrores do nosso tempo.

Nota: O cineasta Roberto Gervitz também ficou impressionado com o documentário:
“O filme mais contundente que vi na Mostra. O Povo Palestino e seu martírio. dessa vez nas mãos dos genocidas – Bashar Al-Assad, Putin e Estado Islâmico, que os condenaram ao maior campo de refugiados do mundo – Yarmouk que durou de 1957 a 2018. É impressionante e de profunda beleza trágica o texto da narração. Depoimentos impressionantes de crianças, principalmente de uma ao final do filme que impressiona pela lucidez, a pequena Tasnim. Um filme para não esquecer um só fotograma, mas nosso inconsciente fará o serviço pois é difícil conviver com tal sofrimento, embora não resignado, é verdade.”

>> Pequena Palestina – Diário de um Cerco pode ser visto até quarta-feira na plataforma Mostra Play.

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