Ferrovia dos sonhos

É Tudo Verdade: OS CARAS DO ESTREITO

por Paulo Lima

Em tempos de guerra com direito a um revival da Guerra Fria, projetar uma forma de unir o Ocidente ao Oriente pode parecer uma arrematada loucura. Pois foi essa a ideia que, durante 30 anos, deu sentido à vida de George Koumal, um imigrante tcheco que fugiu do comunismo para recomeçar nos Estados Unidos.

George tinha 45 anos quando idealizou uma ferrovia intercontinental que ligaria os Estados Unidos à Rússia através do estreito de Bering. Engenheiro de formação, ele gastou todo o dinheiro da aposentadoria para concretizar o que chamou de “o maior megaprojeto do século 21”.

Sua história caiu nas mãos do cineasta Rick Minnich, que a acompanhou durante 10 anos e a transformou no documentário Os Caras do Estreito (The Strait Guys). Em 2018, Rick e George se encontraram pela última vez, quando o sonho mirabolante de George estava em stand-by. O engenheiro tinha então 76 anos e se queixa do fracasso de sua grande motivação existencial.

É Rick quem narra a cruzada do amigo e suas iniciativas para materializar o túnel ferroviário, seguindo-o em reuniões e encontros. Dois amigos de George acreditaram na sua empreitada, que tinha tudo para ser o Canal do Panamá do século 21: Joe, morador do Alasca, e Victor, russo. Esses caras do estreito chegaram a mobilizar o interesse dos coreanos em torno do túnel. Mas logo os asiáticos pularam fora. Apesar dos seus esforços, George jamais conseguiu estabelecer contato com autoridades americanas que poderiam alavancar e dar forma ao seu delírio.

Morando em Tucson, Arizona, George leva uma vida solitária, após a morte de sua esposa Alena. A relação com os três filhos está estremecida pelo fato de George ter dilapidado os recursos da família para financiar a ferrovia que mudaria o curso das relações comerciais entre a América e a Ásia.

Quando ele já parece pronto para jogar a toalha, surge um empresário americano, Scott Spencer, que se oferece para atuar como financiador da ferrovia e volta a nutrir o sonho de George. Enquanto persegue sua jornada épica, ele é tratado com desdém ou entusiasmo condescendente, à semelhança de alguém que se propusesse a vender terrenos na lua. Na emaranhada e complexa geopolítica pós-Guerra Fria, sua aposta soa como uma miragem naïve, a qual testemunhamos divididos entre a simpatia e a descrença, tocados por sua figura de viajante da utopia e avô.

Paulo Lima

Exibição:
02/04 – 17h: online: É Tudo Verdade Play – Limite de 1500 visionamentos.

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