“Não há mais judeus na Ucrânia”

BABI YAR – CONTEXTO no Olhar de Cinema

O Festival Internacional de Curitiba está exibindo online, só até quinta-feira, mais uma obra-prima colhida nos arquivos pelo ucraniano Sergei Loznitsa (Donbass, Blockade, State Funeral). Como nesses dois últimos filmes, Loznitsa limita-se a editar materiais de cinematecas russas, ucranianas e alemãs, sem qualquer comentário oral, acrescentando apenas algumas cartelas explicativas.

Babi Yar era um barranco na periferia de Kiev, onde as tropas ocupantes alemãs fuzilaram quase 34.000 judeus ucranianos num único dia de 1941. As vítimas eram convocadas a se reunirem com seus pertences de valor para serem mortas sumariamente, tendo seus corpos em seguida incinerados. O episódio, inenarrável, não teve registro visual direto incluído no filme, mas Loznitsa revela seu contexto, que é igualmente brutal.

Em muitos aspectos, esse é um dos mais chocantes testemunhos da II Guerra em imagens. O filme reúne cenas atrozes de espancamentos, linchamentos e assassinatos de cidadãos comuns nas ruas de cidades ucranianas. Casas e prédios incendiados em Lvov e Kiev, mulheres cavando trincheiras e limpando cadáveres, soldados se rendendo diante da câmera e colunas infindáveis de prisioneiros de guerra se deslocando em meio aos combates. As panorâmicas da megadestruição deixam patente o horror e a insânia do conflito.

Assombroso é também ver o apoio eufórico da população à entrada dos alemães, a adesão quase maciça aos símbolos hitleristas, que então punham abaixo o domínio de Stalin. Milícias ucranianas colaboravam com os alemães no extermínio de conterrâneos judeus. O antissemitismo está na origem da permanência de grupos nazistas ainda hoje na Ucrânia do judeu Zelensky.

Muitas dezenas de milhares de judeus foram mortos em condições semelhantes aos de Babi Yar. Isso permitiu aos alemães e seus simpatizantes proclamarem que a Ucrânia estava, enfim, “limpa”: “Não há mais judeus na Ucrânia”. Em 1943, contudo, a URSS começa a retomar as cidades ucranianas e trocar novamente placas, bandeiras e ícones de culto pessoal. Sem a mesma exaltação, a população aplaude a retomada.

Seguem-se alguns testemunhos no processo que julgou as atrocidades de 1941. Dois deles impressionam particularmente: um soldado da SS descreve em detalhes como atuava nos fuzilamentos (creio que seja um depoimento único em sua natureza) e uma sobrevivente do massacre conta como escapou por um triz da morte no barranco.

Quando pensamos que já vimos (e ouvimos) tudo, Loznitsa nos mostra a execução pública de 13 carrascos diante de uma multidão sedenta pelo espetáculo. A guerra, então, aparece como um convite à reflexão sobre a natureza humana. Muda-se o lado, alteram-se os contextos, mas a crueldade prevalece. A morte acaba exercendo sempre seu fascínio macabro. Depois vêm os memoriais, como o de Babi Yar, que chancelou o documentário de Loznitsa.

Babi Yar. Contexto (Babi Yar. Context) deixa que as imagens falem por si, apenas adicionando uma sonoplastia realista. As excelentes condições de preservação e restauração dos materiais permitem uma imersão sensorial notável. Assim, em seu silêncio retórico, o filme diz muito mais que qualquer dramatização.

>> Babi Yar. Contexto pode ser visto aqui, somente até as 23h59 de quinta-feira, 9 de junho.      

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