Vladimir e Giocondo

QUANDO A COISA VIRA OUTRA e GIOCONDO DIAS – ILUSTRE CLANDESTINO no streaming

Um conto de dois irmãos

Enfim um filme sobre Vladimir Carvalho que dá realce à relação de vida e cinema entre ele e o irmão Walter Carvalho. Marcio de Andrade e sua equipe usaram essa fraternidade como base narrativa para construir uma síntese da obra de Vladimir, mas citando também alguns trabalhos de Walter. De certa maneira, é um filme de Walter para “Vlad”, uma manifestação de reconhecimento pelo irmão-pai que o introduziu nas imagens em movimento. São falas de Walter, por sinal, que dão o título do filme, Quando a Coisa Vira Outra, o subtítulo “Um encontro entre imagens dos irmãos” e uma definição lapidar do trabalho de Vladimir: “um cinema da desigualdade”. Leia-se contra a desigualdade social.

Ambos comentam filme por filme, das primeiras tarefas no clássico Aruanda, de Linduarte Noronha, ao penúltimo longa vladimiriano, Cícero Dias, o Compadre de Picasso. Os irmãos se complementam mutuamente em comentários separados – e é curioso que não se encontrem diante da câmera. São duas formas de inteligência diferentes, mas que têm em comum a expressão eloquente e o calor com que aquecem as palavras.

Walter relembra seu aprendizado no documentário fazendo a fotografia de filmes de Vladimir, enquanto este recorda os cuidados com o irmão 13 anos mais novo. Enquanto Vlad permanecia sempre fiel ao documentário, embora experimentando uma poética e toques de ficcionalização em meio ao real, Walter vem alternando os dois registros como marca de sua carreira. Apesar dos rumos muito distintos que cada um tomou no universo da produção, é justo dizer que o humanismo essencial do mais velho não deixou de plantar raízes na consciência do mais novo.

Esse documentário traz exemplos vívidos da atuação do documentarista em entrevistas e em dispositivos diversos, além de dar o devido destaque à sua Fundação Cinememória, que guarda relíquias do cinema brasiliense à falta de uma cinemateca local. Eu, que já fiz um livro com Vladimir sobre sua obra, sei que não é fácil organizar uma súmula do seu trabalho entre o Nordeste e Brasília, a política e a arte, a inquirição e a experimentação.

Essa dificuldade transparece em Quando a Coisa Vira Outra na forma de um roteiro um tanto errático. As referências a Rock Brasília, por exemplo, aparecem completamente deslocadas em seguida à rememoração das funções de Vladimir em Cabra Marcado para Morrer. Se a abordagem não era cronológica, como sugere o início, tampouco percebi, em boa parte do filme, quais eram os critérios que levavam de uma coisa à outra. Fica também evidente que Cabra Marcado para Morrer tinha cópias bem melhores que as utilizadas, assim como A Bolandeira e A Pedra da Riqueza deveriam ter sua proporção de quadro corrigida na edição.

>> Quando a Coisa Vira Outra está nas plataformas Claro Net, Sky, Vivo TV e Oi TV



Aproveito para comentar o longa mais recente de Vladimir Carvalho, GIOCONDO DIAS – ILUSTRE CLANDESTINO, que está na plataforma Now.

Tributo ao grande articulador

O veterano Vladimir Carvalho rende nesse seu novo documentário um tributo a alguns ícones do Partido Comunista Brasileiro, ao qual ele próprio foi filiado e do qual continua admirador. A seu pai, a quem dedica o filme, que também se juntou às fileiras do Partidão nos anos 1930 e 1940. A outros integrantes e ex- históricos do PCB, que participam do filme, como Ivan Pinheiro, Régis Frati, Roberto Freire e Aloysio Nunes (este, quem diria, já foi motorista e guarda-costas de Marighella). E acima de tudo, é claro, a Giocondo Dias, considerado o grande articulador da legalização do partido e um de seus mais habilidosos dirigentes.

Vladimir pretendia que seu filme fosse objeto de discussão junto com o Marighella de Wagner Moura, uma vez que o PCB se opunha visceralmente à opção pela luta armada. Não foi o caso. O modesto documentário não tem a força da obra pregressa do mestre.

A pouca exposição social do personagem deve explicar a rarefação de materiais visuais sobre ele. Assim, a longa vida de Giocondo na clandestinidade depois de participar como militar da Aliança Libertadora Nacional, a escapada para Moscou via Argentina, sua atuação que suscitava ciúmes de Prestes e suas atitudes memoráveis no interior do partido são narradas em depoimentos extensos, às vezes detalhados demais. Daí a impressão de estarmos diante de uma coleta de história oral sobre a trajetória de Giocondo.

A dificuldade em contextualizar o papel do personagem no roteiro e na montagem acaba encerrando o filme numa redoma de autorreferência. Mais que tudo, ressalta uma defesa da postura do PCB de aguardar por um “movimento de massas” que, mais dia, menos dia, haveria de derrotar a ditadura. Também aqui, não foi o caso.

3 comentários sobre “Vladimir e Giocondo

  1. Caro Carlos Alberto, tudo bem?

    Agradeço imensamente a gentileza de dedicar seu tempo a ver o documentário “Quando a coisa vira outra’. Suas observações são extremamente acuradas e pertinentes ao filme, o que em nome da equipe, agradeço. Em relação aos arquivos realmente pode ter alguma diferença de qualidade pois tivemos grande dificuldade em encontrar arquivos com melhor qualidade, mesmo tentando recorrer a importantes acervos brasileiros no decorrer da pandemia.

    Janelas e Proporções
    Em relação à questão da proporção da janela, tentei ao máximo preservar a janela original de projeção de cada obra variando entre as janelas mais clássicas e quadradas como 1:33, 1:66 até as mais alongadas como 1,78, 1:85 ou 2:35. Acontece que durante a pandemia não conseguimos contato com nenhuma instituição de preservação de obras, pois estavam todas fechadas. Isso foi feito na fase final em que as imagens foram restabelecidas.
    Trabalhamos com os arquivos disponíveis, alguns com qualidade sofrível. Mas todos os arquivos foram substituídos pelos arquivos fornecidos pelos detentores dos direitos de licenciamento e cedidos para a produção, portanto são os arquivos que legalmente do ponto de vista jurídico em relação aos direitos autorais, a produção foi autorizada a utilizar.
    Eventualmente, quando as imagens são alternadas entre as em preto e branco e cores as janelas podem ser diferentes, e para evitar os pulos tivemos que fazer uma opção para facilitar a compreensão do espectador. E cabe aqui acrescentar que na transmissão pode acontecer de fazer um resize / um ajuste de proporção para completar o formato de 16×9, que é o que vc deve ter visto. Mas convido você a assistir na projeção em cinema no Estação Botafogo no próximo dia 17/7 e ver que as janelas e suas proporções estão lá. O que para mim e para equipe será um grande honra.

    Estruturas e construções
    Quanto às questões da dificuldade em organizar os filmes e fases de trabalho de Vladimir, como você mesmo teve a oportunidade de fazer um livro sobre ele sabe o quanto é difícil. Imagina então ter horas e horas de suas conversas e histórias que de tão interessantes, fica difícil escolher o momento do corte. Em virtude disso foi criada uma estrutura de roteiro que elencasse o que seria primordial para o filme retratar dentro da vasta obra do Vladimir. Então escolhemos a Luta contra a desigualdade e o humanismo como elementos que permeiam boa parte de seus filmes, e assim a edição do material teve uma direção a seguir. Isso era absolutamente necessário para nos localizar nas grandes estruturas de roteiro, digressões, improvisos e retomadas que Vladimir sabe fazer com maestria.

    A construção do roteiro faz lembrar o quadro de Magritte intitulado “A arte da conversação”, onde pedras são sobrepostas umas às outras, e nesse percurso da conversa acabam por formar um mosaico, como se a lembrança e a experiência tanto de um como de outro se acomodassem nesse monumento erigido pela conversa. É isso o que espectador vê, a conversa. Há portanto, uma construção que não segue um modelo errático e sem rumo, mas que é regido pelo fluxo de memória, pela entonação na complementação das histórias entre Vladimir e Walter, e pela oralidade tão presente na cultura brasileira e que foi capaz de nos trazer belas histórias ao longo dos séculos, mesmo que tragam imprecisões e lendas.
    Discordo quanto ao fato de utilizar o termo “errático” como foi colocado, pois o roteiro tem um encadeamento que não é cronológico, seguindo mais o bel prazer da conversa entre os dois com as imagens dos filmes para dar mais sabor à conversa… O roteiro e a edição seguem o fluxo de memória e do diálogo entre Vladimir e Walter, o que por vezes nos obriga a fazer elipses não só de tempo, mas também de assunto. Nisso seguimos esse conceito construído, e que focamos em propor uma redescoberta dos filmes de Vladimir a um público que ainda não o conhece ou que lembra que ele fez o Rock Brasília um dos seus filmes mais vistos, mas não teve a oportunidade de mergulhar mais atentamente em sua obra.
    Por isso, tomamos a liberdade de trazer o Rock para frente dentro da estrutura do filme a fim de gerar uma maior identificação com público. Mas isso foi uma atitude pensada e estruturada, não foi um gesto aleatório. Foi o que melhor conseguimos construir nesse mergulho na fascinante obra de Vladimir Carvalho e nessa irmandade tão profunda com Walter. Irmandade tão necessárias nesses tempos de barbárie.
    Mais uma vez agradeço suas preciosas observações e gostaria de deixar a porta aberta para a reflexão e o debate. Muito agradecido.

    Um forte abraço,

    Marcio de Andrade

    • Salve, Marcio. Agradeço seus comentários esclarecedores de várias escolhas suas na estruturação do filme. É que nem sempre a impressão causada num determinado espectador coincide com as intenções do realizador, o que pode ter acontecido aqui em relação ao roteiro. São riscos que corre um documentário quando se aventura para além da ordenação cronológica. De qualquer forma, é mérito seu buscar uma via mais afeita ao jeitão dos irmãos. Um abraço, sucesso!

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