Sylvio Back.fic

Back dirige Ruth Rieser em “Lost Zweig”

Sylvio Back tem seu nome mais imediatamente ligado ao documentário por conta de clássicos como Revolução de 30, República Guarani, Guerra do Brasil e Yndio do Brasil, além do polêmico Rádio Auriverde e dos mais recentes O Contestado – Restos Mortais e O Universo Graciliano. Isto sem contar os muitos curtas diretamente ligados ao real.

Mas eis que a plataforma gratuita Itaú Cultural Play está abrindo nesta sexta-feira (13/1) uma mostra dedicada aos cinco longas de ficção do autor catarinense prestes a completar 86 anos. Os trabalhos ficcionais de Back são bastante variados em matéria de temas e estilos, e cobrem o período de 1968 a 2002.

Seus três primeiros longas-metragens foram de ficção. Lance Maior (1968) era um drama romântico de feições existencialistas que pretendia derrubar o mito da mobilidade social. Rodado em Curitiba, conta a história de um bancário acomodado às exigências de sua carreira e ligado afetivamente a duas mulheres de classes sociais distintas: uma balconista iludida e uma universitária de família abastada. Retrato honesto de pessoas comuns, isento de estereótipos, Lance Maior é uma pequena joia em preto e branco a se redescobrir.

Em 1970, Back realizou o épico A Guerra dos Pelados, leia-se Guerra do Contestado. A concessão de terras a uma companhia de estradas de ferro estrangeira para explorar suas riquezas e a ameaça de redutos messiânicos de posseiros expropriados geram um conflito sangrento no interior de Santa Catarina. O Exército interveio e os “pelados” opuseram uma resistência à semelhança de Canudos. Com uma grande interpretação de Jofre Soares, este foi o filme mais, digamos, glauberiano de Sylvio Back.

Aleluia, Gretchen, de 1976, é por muitos considerado o melhor filme de sua carreira, ao menos entre os ficcionais. É a história, em parte autobiográfica, de uma família alemã que vem para o Brasil pouco antes da II Guerra e encontra aqui um simulacro do nazismo, o integralismo. O filme termina com uma alegoria da incorporação de sinais nazistas à formação cultural brasileira, tema aliás bem atual perante a recente irrupção da extrema-direita no país.

Santa Catarina também está no foco do filme-recital Cruz e Souza – O Poeta do Desterro (1998). O catarinense João da Cruz e Souza (1861-1898), filho de escravizados alforriados e fundador da poesia simbolista no Brasil, é tido como o maior poeta negro da língua portuguesa. No filme, ele tem sua trajetória encenada através das paixões eróticas, do seu emparedamento social, racial e intelectual numa Florianópolis racista, e do seu fim trágico no Rio de Janeiro.

A mostra se completa com o sólido Lost Zweig (2002), um “resgate ficcional” (o termo é do diretor) da vida brasileira de Stefan Zweig, interpretado pelo alemão Rüdigler Vogler, ator habitual dos primeiros filmes de Wim Wenders. Mais que uma biografia estrita, Back faz a sustentação dramatizada de uma série de hipóteses sobre as razões da vinda de Zweig e sua segunda mulher, Charlotte, para o Brasil em 1941, assim como suas estreitas relações com o governo Vargas. O filme aborda, ainda, as circunstâncias que produziram seu livro Brasil, País do Futuro e, finalmente, os motivos do suicídio pactuado do casal, em fevereiro de 1942.

Em todos esses filmes é possível encontrar traços que ligam a ficção às origens e às admirações intelectuais do cineasta. Assim também fica evidente a liberdade que ele se concede para tratar a narrativa histórica não como uma vestal recatada a quem se deva respeitar, mas uma mulher fogosa sempre aberta à livre dramatização e às licenças da metáfora.

Um comentário sobre “Sylvio Back.fic

  1. Acompanhei muito esta linda trajetória! E sempre acreditando neste imenso SUCESSO!! Recebam com muito carinho e respeito um gigante abraço “ carreginho🦋de muito🙏🏽👏🏽👏🏽🤛AXÉ!

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