CAMPONESES
A belíssima animação polonesa Camponeses (Chlopi) é mais um cumprimento à expertise dos eslavos nesse métier. Baseia-se no romance homônimo de Władysław Reymont, clássico da literatura polonesa já levado às telas várias vezes desde 1922. Reymont, detentor do Prêmio Nobel, pertenceu ao movimento modernista Jovem Polônia (1890-1918), que abrangia literatura e pintura. O casal de cineastas Dorota Kobiela e Hugh Welchman inspiraram-se principalmente na estética daquele movimento para chegar às imagens do filme. Mas citaram também telas de Van Gogh, Vermeer e Jean-François Millet, entre outros pintores realistas e pré-impressionistas (veja aqui essas fontes de inspiração).
Van Gogh já tinha servido de base para seu filme anterior, Com Amor, Van Gogh. Em Camponeses, me parece, eles chegaram a um resultado superior por não se prenderem a uma história forjada em torno do próprio pintor. O romance de Reymont se passa em fins do século XIX, numa comunidade rural sufocada pelo patriarcado e pelo despotismo latifundiário. A jovem e bela Jagna (Kamila Urzedowska) desafia a moral vigente com sua indisposição para o trabalho produtivo e um livre desfrute de sua sensualidade. Ela é cortejada pelo fazendeiro Maciej (Miroslaw Baka), um equivalente ao “coronel” dos latifúndios brasileiros, e obrigada a casar-se com ele num contexto em que o amor é comprado com vodka e terras. “O amor vem e vai, mas a terra permanece”, diz a mãe de Jagna. Acontece que a moça mantém um romance razoavelmente clandestino com Antek (Robert Gulaczyk), o filho do marido, ele também um homem casado. O triângulo amoroso precipita uma rivalidade feroz entre pai e filho, assim desestabilizando o status quo da aldeia. Perante a chamada opinião pública, Jagna vai se transformar numa espécie de bruxa, causadora de todos os males.
As emoções violentas, o erotismo e a dinâmica de amor e ódio entre os personagens são plasmados no ritmo intenso das cenas, no colorido vibrante e em cenas de música e dança não menos que arrebatadoras. Como realização, Camponeses equivale a dois filmes. Primeiro, todas as cenas foram filmadas com o elenco de carne e osso. Em seguida, cerca de 100 artistas da Polônia, Ucrânia, Sérvia e Lituânia foram engajados na pintura em óleo sobre cada fotograma, no método conhecido como rotoscopia. As imagens foram então complementadas com pinturas adicionais. No fim das contas, temos uma obra de arte extasiante.
A parte sonora não fica nada a dever, com uma sucessão de músicas folk, clássicas, trance e místicas, performadas por instrumentos tradicionais e canto uníssono.
Na fronteira entre o realismo live action e a transcendência das artes plásticas, Camponeses é uma joia que mereceria exibição em tela de cinema. Por ora, está só no streaming da Amazon Prime, Max e AppleTV.




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Na ocasião em que assisti à essa animação, reconheci algumas referências apontadas ali, mas não havia alcançado todas elas. Achei o máximo conhecer as fontes artísticas de inspiração na concepção do filme. Valeu, Mattos! Suas críticas e resenhas são geniais!
Essa assinatura “Anônimo” do WordPress me frustra. Fico sem saber quem está comentando. Agradeço o elogio.