Novíssimos e gregários

janeiro 31st, 2011 § 3 Comentários

Pós-indústria, pós-mercado, estética como política, amizade, política do afeto, cachaça como combustível de criação – palavras e expressões que ficam das conversas e debates da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O chamado Novíssimo Cinema Brasileiro esteve mais uma vez na tela e na boca das pessoas. A seguir, algumas observações a partir dos cinco longas de ficção que vi no Cine-Tenda e dos que constavam da programação e eu já tinha visto antes.

Essas notas não se aplicam à totalidade do cinema ficcional que se faz hoje no Brasil, nem mesmo ao que é feito por jovens. Referem- se antes a uma parcela que chega à Mostra por obra de uma curadoria especialmente interessada na inovação formal e em posturas de criação e produção menos convencionais.

Os Monstros

Repartição de autoria e criação coletiva

A maioria dos filmes é feita em grupo, sendo a turma da cearense Alumbramento (Os Monstros) o epíteto dessa forma de invenção e produção. Os gêmeos Luiz e Ricardo Pretti, junto com os primos Guto Parente e Rafael Diógenes, concebem, dirigem e atuam como um quarteto inseparável, procurando expressar algo que soa próprio do seu jeito de ser (juvenil cool, digamos) e do seu desejo um tanto angelical de simplesmente fazer filmes.

Mesmo nos trabalhos assinados por um só diretor, existe (e é ressaltada) a contribuição autoral de membros da equipe. Equipes, aliás, plenamente integradas a grupos como os da Alumbramento, da Cavídeo (Riscado, Enchente, Copa Vidigal) e da Teia (O Céu sobre os Ombros). Nota-se, aliás, um regime de colaboração muito ativo entre realizadores e técnicos de estados diferentes, sobretudo Ceará, Pernambuco, Minas e São Paulo. O diretor de fotografia cearense Ivo Lopes Araújo, talvez a maior referência estética dessa geração, tinha quatro longas (de três estados) na mostra, e rolava uma campanha para homenageá-lo no ano que vem.

O conceito de cinema de autor caiu em desgraça em certa parcela de cineastas e críticos jovens. A ideia é devolver à obra (como se ela existisse “em si”) uma primazia que teria sido usurpada pela figura do autor individual. Não há sinais de humildade nessa atitude, mas talvez um misto de atitude blasé, uma certa utopia essencialista e um bocado de gregarismo também. Até um diretor cheio de si e de citações eruditas, como o ex-crítico Tiago Mata Machado, incorpora no vencedor Os Residentes, seu segundo longa, os influxos de artistas plásticos e gente de teatro, sem falar no casal de protagonistas que são também diretores.

Os Residentes

Narratividade tênue e performance

Nos novíssimos filmes de ficção percebe-se o que Cezar Migliorin atribui a uma “crise do roteiro”. Como vários desses longas são feitos à margem dos editais – ou subvertem alguma rigidez do roteiro na montagem, como foi o caso de Transeunte, de Eryk Rocha –, a preocupação com a escritura se dilui em benefício do momento da filmagem. As cenas são então concebidas como algo que fica entre a experiência (vivida) e a experimentaçāo (encenada). O resultado são filmes compostos por uma sucessão de performances. Os Residentes, com seus sketches godard-debordianos sobre guerrilha e poder, é o exemplo mais acabado desse tipo de filme “espatifado contra a parede” (no feliz dizer do crítico Fábio Andrade).

É claro que nem todos são filmes em cacos. Nem todos enfocam situações nas vidas de seus personagens de maneira tão pouco linear quanto O Céu Sobre os Ombros, Avenida Brasília Formosa e Transeunte, este o mais belo que vi em Tiradentes. Mas, ainda quando há cronologia e lógica de causa e efeito, como em Riscado e Os Monstros, a força das unidades e a sua relativa completude se impõem sobre a tênue linha que as une.

Transeunte

Viver no cinema

O espírito colaborativista, a disposição para filmar com pouco dinheiro e a prevalência da estética sobre a produção (ou talvez a transformação da estética em recurso de produção) são traços desse Novíssimo Cinema Brasileiro. Há, pelo menos no discurso de alguns, um saudável desinteresse pelo mainstream e um preocupante descaso pela política institucionalizada, mesmo a política do cinema. A ideia de política é frequentemente empurrada para as bordas – ou como conceito intelectual, ou como articulação de relações no nível do cotidiano.

Esse cinema de ficção essencialista e às vezes bastante autocentrado exprime, no fim das contas, o desejo de um bocado de jovens para quem, mais que viver DO cinema, importa viver NO cinema. Ter “o cinema não como profissão, mas como vocação”, para usar termos de Marcelo Ikeda e Dellani Lima no livro que lançaram em Tiradentes, Cinema de Garagem – Um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. 

O sistema e a bolinha de papel

janeiro 28th, 2011 § 1 Comentário

Neste sábado, de 14h30 às 17h, a 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes vai formar uma mesa para debater as relações entre estética e política no cinema brasileiro contemporâneo. Vou participar junto com os críticos e pesquisadores Cezar Migliorin, Claudia Mesquita e Francis Vogner dos Reis, mediados pelo curador do festival, o crítico Cleber Eduardo. Para o catálogo da mostra, preparei o seguinte texto sobre alguns diálogos entre audiovisual e política nas temporadas 2009 e 2010: 

 

 

 

 

 

 

O sucesso estrondoso leva Tropa de Elite 2 a frequentar quase todas as conversas sobre o cinema brasileiro do momento. Mas daí a apontá-lo como “o” filme político da temporada vai, no mínimo, uma discussão. As inquietações políticas que perpassam o filme de José Padilha são meras repercussões da caixa de ressonância social quando se fala de criminalidade x ordem. O drama do Capitão Nascimento acolhe uma certa percepção da classe média urbana segundo a qual as mazelas são resultado de um emaranhado de razões, resumidas no conceito de “a política”. Ou, conforme o jargão neo-sessentista do filme, “o sistema”.

O diagnóstico de sistema doente, no fundo, aplaca a inquietação, pois exime-se de localizar personagens e pontos de crucialidade. Estabelece-se uma cadeia de conexões que vai do bandidinho ou do policial menor, passando pela mídia, até as esferas maiores de poder – concluindo, é claro, com um sobrevoo acusatório de Brasília. Em troca da discussão, temos a catarse promovida pela constatação de que “está tudo errado”. A política como um todo sai desqualificada.

Tropa 2 teve, no entanto, um valor considerável na arena da política cultural quando aqueceu os números da ocupação do mercado pelo filme nacional. Assim forneceu “dados concretos” para que o cinema brasileiro chegasse fortalecido à aurora de um novo governo e um novo Ministério da Cultura.

Nesse mesmo diapasão, um filme como 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos assume um papel político bem mais importante do que a maioria daqueles que se dispuseram a “falar de política”. Os meninos do Cacá bancaram uma afirmação da voz comunitária não apenas como interferência exótica no fluxo das emissões mainstream, mas como uma emissão em si, capaz de disputar espaço nos cinemas de shopping como nos tabuleiros de DVDs piratas.     

Com o retrovisor ajustado na temporada 2009/2010, reencontramos José Padilha com o documentário Garapa, que eu interpreto como uma tentativa de desmentir o alcance da política social do Governo Lula no Nordeste ou mesmo um contraponto (estético e político) à narrativa edificante de Lula, o Filho do Brasil. Esta polarização, entretanto, não encontra eco no banho-maria dos demais lançamentos.

Como nos últimos anos, predominaram as revisitas ao período ditatorial e a outros momentos da História do país, com mínima repercussão na atualidade. Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler, foi dos poucos a tentar uma articulação entre passado e presente. Mesmo um filme poderoso e raro como Cidadão Boilesen, de Chaim Litevski, tinha sua eficácia circunscrita ao campo do filme histórico. Da mesma forma, o tocante Diário de uma Busca, de Flávia Castro, limitava seu raio de ação ao resgate pessoal e a um lapso temporal demarcado.

A análise do fazer político, incrementada ultimamente pelos filmes de campanha, teve dois títulos circulando em festivais: Os Representantes, de Felipe Lacerda, e Arquitetos do Poder, de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé. Mais no primeiro que no segundo, as ferramentas do cinema documental serviram para nos aproximar de certas práticas político-eleitorais, ainda que sem revelar grandes novidades para quem acompanha o noticiário jornalístico.

A campanha eleitoral de 2010, aliás, foi o terreno por excelência da guerra audiovisual, travada principalmente no circuito televisão-internet. O episódio da bolinha de papel explicitou claramente o combate entre o poder instituído dos grandes canais de TV e a guerrilha cibernética, cada qual defendendo – ou mesmo forjando – suas versões no quadro de uma disputa pela evidência de “verdade”. Não sei se em algum outro momento da História política brasileira o registro da imagem em movimento assumiu tal protagonismo, projetando-se para as esferas da moral, da crônica pitoresca e da influência sobre os destinos da nação.

Pachamama, de Eryk Rocha, Olhos Azuis, de José Joffily, e o doc A Chave da Casa, de Paschoal Samora e Stela Grisotti (sobre imigrantes palestinos no Brasil), se destacaram por implicar em sua temática o lugar político do Brasil no cenário internacional. Destacaram-se sobretudo pela raridade com que o cinema brasileiro se abre para questões de além-fronteira, mesmo agora que o país reivindica um papel mais definidor no cast mundial.

É óbvia também a dimensão política de certas observações de classe, como as levadas a cabo por Sérgio Bianchi (Os Inquilinos), Gabriel Mascaro (Um Lugar ao Sol) e Marcelo Pedroso (Pacific). Ou de uma evocação artístico-histórica como Dzi Croquetes, o mais político da safra recente de docs musicais. Mas não quero aqui somar argumentos ao velho clichê de que “tudo é político”. Reconheço gradações fundamentais entre filmes que apenas tangenciam esse campo ao tratarem de questões antropológicas, existenciais e culturais; os que confrontam diretamente assuntos da política; e ainda aqueles que se propõem a ter, eles próprios, um desempenho político.

Um misto de descrença no papel extracinematográfico do cinema, individualismo blasé e interesse comercial responde talvez pela baixa incidência de filmes com ambições de intervenção política no Brasil de hoje. Mesmo a expressão de inquietações políticas passa por um filtro de espetacularização e “humanização” (Salve Geral é um bom exemplo), quando não esboroa em formatos desprovidos de empatia (o doc Luto como Mãe é um caso).      

Daí a conveniência de citar, como exceção à regra, o doc paulista O Abraço Corporativo. Para denunciar a vulnerabilidade da mídia ao “novidadismo” e à “superfluocracia” (os termos entre aspas são meus), o diretor Ricardo Kauffman, um jornalista de economia, criou um fictício consultor de recursos humanos e uma fictícia Teoria do Abraço Corporativo, e colocou-os na roda dos eventos midiáticos. O filme acompanha o processo em que a lebre é comprada como gato por importantes jornais e canais de TV. Ao constituir-se como peça de intervenção na realidade e expor os resultados, o filme descortina modos e manias de uma imprensa que se arvora em instituição política de primeira grandeza.

Abbas e Eduardo – jogos de cena

janeiro 26th, 2011 § 1 Comentário

As trajetórias de Abbas Kiarostami e Eduardo Coutinho trilham estradas de certa forma paralelas, mas em sentidos contrários. Kiarostami vem da ficção e, aos poucos, foi desvendando o teor documental da ficção. Coutinho, por sua vez, apesar do início de carreira na ficção, pode-se dizer que vem do documentário, mas explora cada vez mais o caráter ficcional do documentário.

Shirin (2008), de Kiarostami, e Jogo de Cena (2007), de Coutinho, são talvez os pontos em que eles se cruzam no caminho, cada um na sua pista.

A proposta de Shirin parece simples à primeira vista. O filme se compõe exclusivamente de closes de mulheres na plateia de uma sala de cinema. Elas assistem a um filme que supostamente passa na tela à sua frente, mas que não vemos. Apenas ouvimos a faixa sonora e vemos as mudanças de luz das cenas se refletirem no rosto das espectadoras. O filme-dentro-do-filme baseia-se num poema do século XII, que conta a tortuosa história de um triângulo amoroso entre Shirin, rainha da Armênia, Khosrow, rei da Pérsia, e o escultor iraniano Farhad. O áudio indica uma alternância de cenas românticas e dramáticas, intrigas e batalhas. A tudo as mulheres reagem ora com enlevo e sorrisos, ora com sustos, horror e muitas, muitas lágrimas.

A experiência de “ver” um filme através somente dos rostos de espectadores já é por si mesma intrigante. Quantas vezes não somos tentados a checar como nossos companheiros de plateia estão reagindo a determinados momentos de um filme? Em certos casos, essa diversão poderia ser até mais interessante que o próprio filme, não fosse o risco de sermos tomados por malucos ou inconvenientes. Shirin nos oferece a chance de radicalizar essa opção.

Mas o que aqui interessa para o meu argumento se revela apenas no making of do filme. Por ele ficamos sabendo que tudo não passou de um jogo de cena promovido por Kiarostami com 114 famosas atrizes iranianas, mais Juliette Binoche. Quando elas tiveram registradas suas expressões e lágrimas, não tinham filme nenhum diante de si, mas apenas um pequeno cartão que indicava a direção dos olhares e a voz do diretor conduzindo seus gestos e estimulando a lembrança de episódios emocionantes da vida de cada uma. Até o manuseio dos véus de cabeça foi dirigido por Kiarostami.  Os sustos eram provocados por objetos atirados ao chão do pequeno estúdio, onde cada atriz filmou separadamente. A dança de luzes era feita com máscaras à frente de um refletor. Só depois é que foi gravada a dramatização sonora da história de época, sendo cada trecho editado com as expressões mais adequadas das espectadoras.

Kiarostami trabalha, assim, com a abstração e a pura ilusão do aparato cinematográfico. Refaz a célebre experiência de Lev Kulechov, que “contaminava” expressões humanas com elementos filmados à parte e montados em justaposição. De certa forma, dialoga com o filme do Coutinho ao instabilizar a verdade da representação. Mas se Coutinho buscava com Jogo de Cena indiferenciar verdade e encenação, Kiarostami pretende partir da completa encenação para forjar uma impressão de verdade só possível através da sugestão cinematográfica. Um desconstrói, o outro constrói.

Afora isso, os filmes se assemelham no interesse pelo rosto feminino. Em Jogo de Cena, o rosto ativo e emissor de histórias e emoções. Em Shirin, o rosto passivo receptor, mas que se torna ativo ao servir de espelho para nós, espectadores finais. A passividade das personagens de Kiarostami funciona ainda como um comentário à condição da mulher iraniana, tema obsessivo de filmes recentes do diretor. Por isso, depois de uma trama que envolve repressão, renúncia e autossacrifício, o filme-dentro-do-filme direciona uma pergunta às mulheres da plateia: “Suas lágrimas são por Shirin ou pela Shirin que existe dentro de cada uma de vocês?”. Shirin, no fundo, seriam todas as mulheres do Irã.     

Questão de identidade

janeiro 25th, 2011 § Deixe um comentário

As palavras são de Maurice Capovilla:

“Precisamos reconquistar o espaço perdido no mercado brasileiro e manter a linguagem que conquistamos, caracterizada pela busca de novos meios de expressão. De posse de todos os recursos tecnológicos de que dispomos, é necessário garantir a nossa condição de autores, independentemente de o filme ser considerado comercial ou não, mas sempre mantendo a imagem que caracterizou nossa identidade cultural e nacional”.

Leia a íntegra do importante texto publicado por Capovilla no Estadão do último domingo.

E aqui sobre a microssérie Luz & Ação, realizada por Capovilla e Marília Alvim para o Canal Brasil.

Cinema Paraibano – Memória e PreservAção

janeiro 24th, 2011 § Deixe um comentário

Soube através do indispensável Almanaque da Rosário (e-mails divulgados pela jornalista Maria do Rosário Caetano) que uma parte importante da memória cinematográfica paraibana está prestes a ser resgatada. O projeto, aprovado pela Petrobras, tem o título deste post e está sendo tocado por Fernando Trevas Falcone e Lara Amorim, professores da UFPB. Até meados de 2013, eles vão restaurar e digitalizar o acervo do Nudoc – Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB.

Em sua maioria nas bitolas de Super 8 e 16mm, o tesouro inclui pepitas de grande valor para completar o mapa da cinematografia da região. Falcone citou algumas:

Gadanho (João de Lima e Pedro Nunes, 1979) mostra os catadores que vivem do lixão de João Pessoa. Quando exibido, provocava forte reações da plateia. A miséria estampada na tela é contudente.

Mestre de Obra (Newton Júnior, 1982) acompanha a vida de um operário. A música é de Chico César.

Celso Pós-Milagre (Vânia Perazzo, 1982). A rotina parisiense de Celso Furtado, o mais renomado dos paraibanos cassados pela ditadura.

Não conheço a Lara, mas admiro muito a inteligência e a capacidade do jornalista Fernando Trevas Falcone. Ainda não li a sua dissertação de mestrado na USP, “A Crítica Cinematográfica na Paraíba e o Cinema Brasileiro – Anos 50 e 60″, mas levo muita fé. Naquele estado e período havia uma forte colaboração entre críticos e cineastas, sendo que a Associação de Críticos local frequentemente aparece como coprodutora de filmes. Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, foi um dos que circularam entre os dois ofícios.  

Além da recuperação do acervo, Fernando e Lara pretendem realizar uma mostra e publicar um livro com reflexões sobre a produção e com o resumo dos debates que devem acontecer durante o evento. Querem também criar um site para divulgar os filmes e, se houver possibilidade, disponibilizá-los para os internautas.

‘Enchente’ em Tiradentes

janeiro 22nd, 2011 § 5 Comentários

A 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou sexta-feira sob os signos do luto (pelas tragédias das chuvas) e da política. “Inquietações políticas” é o eixo temático das discussões este ano. E um dos filmes a disputar o Troféu Aurora, entre realizadores iniciantes, vai bater na tela com um significado muito especial. Trata-se do documentário Enchente, de Julio Pecly e Paulo Silva, produzido por Cavi Borges.

Os desastres da região serrana do Rio de Janeiro ainda não tinham acontecido quando o doc foi feito, mas a sensação de “esse filme a gente já viu” vai tomar conta de todos. Enchente é uma evocação da tromba d’água que atingiu o Rio em fevereiro de 1996 e fez dezenas de mortos somente no bairro de Cidade de Deus. O trunfo maior são as gravações amadoras feitas, na noite da catástrofe e no dia seguinte, por um certo Zezinho com uma câmera VHS recém-comprada. As imagens de Zezinho têm aquela qualidade que as cenas dos telejornais dificilmente conseguem obter: os acontecimentos filmados na hora, com a pulsação viva de alguém que se sente parte daquilo. Lembram as imagens captadas por Kimberly Rivers no olho do furacão Katryna, que motivaram o doc americano Trouble the Water, de 2008.

Julio Pecly e Paulo Silva coletaram lembranças dos moradores de Cidade de Deus 15 anos depois, mostrando como o trauma de um desastre desses se enraiza na memória das vítimas. Além disso, Enchente faz uma espécie de histórico das grandes inundações cariocas desde 1954. Daí a sensação de “filme repetido”, que se ampliaria na megacatástrofe deste janeiro negro. “Quando será a próxima enchente?”, perguntava-se o letreiro final da versão que vi, ainda num corte provisório meses atrás.

Não é difícil soar profético quando se trata desse tipo de desgraça, causada por uma combinação de fúria da natureza, imprevidência do poder público e falta de consciência dos próprios cidadãos. A partilha dessas responsabilidades é um dos assuntos discutidos no filme, daí o seu caráter político. O então prefeito Cesar Maia aparece acusando os governos estadual e federal de omissão. Hoje em dia, que esse divórcio de poderes não ocorre mais no Rio, como refazer a discussão sobre responsabilidade e culpa?

Enchente será exibido na segunda-feira, às 19h30, no Cine-Tenda.

Leia sobre outros filmes da Mostra Tiradentes que eu já comentei aqui no blog:
Avenida Brasília Formosa
Copa Vidigal
Santos Dumont Pré-cineasta?

O messias do lixão

janeiro 20th, 2011 § Deixe um comentário

Lixo Extraordinário foi um dos documentários mais elogiados internacionalmente em 2010. Ganhou prêmios em Sundance, Berlim, Dallas, Seattle, Durban e mais outros tantos festivais, além de Paulínia, São Paulo e Manaus. Chega à corrida do Oscar como um dos 15 concorrentes a uma indicação. Nas justificativas dos prêmios, cita-se com frequência o “poder da arte” para “transformar a vida”. Em muitos casos, é provável que se confundam as virtudes do projeto original de Vik Muniz com as qualidades do filme. Isso é muito comum entre os docs. Cabe, portanto, distinguir uma coisa da outra – se isso for mesmo possível neste caso.

Consagrado no mercado de arte, Muniz viu no lixão de Jardim Gramacho uma oportunidade de restituir ao seu país de origem um pouco do sucesso obtido lá fora. O filme registra sua visita ao subúrbio paulista onde nasceu de família humilde. Mostra o supermercado onde ele empurrava carrinhos nos seus primeiros tempos de EUA. No lixão, Vik convoca catadores para posar para fotos e depois catar lixo para reconstruir as imagens em grande escala, que serão novamente fotografadas para as obras finais. O resultado, como bem conhecemos, é fascinante.

O processo gerou auto-estima e lucros para os participantes. “Já faz três anos que esse meu conto de fadas não termina”, disse recentemente numa entrevista Tião, um dos protagonistas e presidente da associação de catadores. Nenhum demérito, portanto, para um trabalho que mexeu, ainda que superficialmente, com alguns paradigmas sociais. O filme, contudo, deixa transparecer algumas fissuras nas atitudes que nortearam o projeto.

Incomoda particularmente a aproximação messiânica e empostada de Vik Muniz, disposto a “mudar a vida das pessoas”. A chegada de avião à área de Gramacho, as autorreferências elogiosas, o uso da expressão “fator humano” para se referir aos personagens das obras são signos de um salvacionismo apenas disfarçado pela declaração autocrítica colocada ao final do filme: Vik desconfia de que estaria se ajudando tanto quanto aos outros. Conversas instrutivas sobre arte contemporânea indicam o caráter pigmaleônico dessa relação entre a máxima celebridade e o estrato social menos qualificado, este em posição de beneficiários passivos.    

Na concepção das fotos, há um evidente desejo de “elevar” os catadores de lixo à condição de personagens clássicos ou mitológicos – Marat, madonas, anjos etc. A redenção momentânea vem através da grande arte e da literatura, num forte deslocamento dos personagens de seu meio, um pouco como fazem as fantasias de carnaval. Um bom momento do doc é quando se discute o que fazer com aqueles que não querem voltar para o lixão depois de duas semanas de vida artística.    

O fato de ser uma co-produção internacional justifica o uso frequente do idioma inglês, mas não impede que certas conversas no Brasil ganhem um tom fake, especialmente quando Vik assume a postura de pesquisador. Isso provoca um ruído na pretensa observação do processo. Deixa à vista uma certa teatralidade, que estaria melhor se plenamente assumida como performance.

Lixo Extraordinário, enfim, amplia o alcance e eterniza um projeto artístico de primeira grandeza, mas revela simultaneamente as contradições de seu viés sociológico. Mais fácil que examiná-las é consumir o filme como parte de um ato de enobrecimento humano.   

O realismo lírico de Vittorio De Seta

janeiro 18th, 2011 § Deixe um comentário

Se você gosta de documentários e estará no Rio na tarde de quinta-feira, um conselho: adie outro compromisso, engane o chefe, deixe o parente no hospital. Faça qualquer coisa para não perder a única reprise da sessão Vittorio De Seta, às 15h30, no Instituto Moreira Salles.

Não confunda De Seta com o mais famoso e prolífico Vittorio De Sica. Nascido em Palermo, em 1923, De Seta ainda é vivo e filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a esses 10 curtas realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959, todos com esplêndida fotografia em cores. À exceção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e cotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia. Por vezes somos tomados pela mesma imersão que nos provocavam os bons e velhos filmes dos Irmãos Taviani e de Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos).

Vittorio De Seta

Há um pouco de Flaherty na sutil encenação do trabalho, um pouco de Grierson na seleção de momentos e na criação de climas dramáticos. Vários curtas foram filmados em Cinemascope ou num certo Cineramica, formatos que ampliam o espectro do quadro com efeitos magníficos sobre a paisagem e as aglomerações de camponeses. Sem entrevistas nem narração, as imagens dão conta de tudo, auxiliadas de maneira muito evocativa por sons ambientes e cantos de trabalho. Em cena, um modo de vida rude e arcaico, visto por De Seta com um viés lírico, embora não exatamente nostálgico. O conjunto dos filmes foi lançado em DVD na Europa com o título de “O Mundo Perdido”.

Mas nem tudo ali é passado. Quem assistir, por exemplo, a Camponeses do Mar, vai ver cenas assustadoras da emboscada e matança do atum, que em tudo se assemelham aos momentos mais sangrentos de The Cove, vencedor do Oscar de doc do ano passado. As condições de trabalho dos mineiros de enxofre em Surfarara talvez não sejam muito diferentes das que prevalecem ainda hoje em certas minas do Terceiro Mundo.

Em cada curta de De Seta, experimentamos (mais do que testemunhamos) um dia na vida de um grupo. É extraordinário o uso da luz e da montagem para restituir o fluxo do tempo e da labuta, com seus momentos de preparação, espera, progressão, clímax e repouso. Não há como não destacar a expectativa dos moradores de Stromboli durante as erupções de 1954, a “coreografia” dos debulhadores de trigo em A Parábola do Ouro ou a quase sublime condensação do cotidiano em Um Dia em Barbagia.

Alguns desses filmes podem ser encontrados no Youtube ou em sites de download. Mas eu aconselho a não perder a oportunidade de vê-los assim, em cópias impecavelmente restauradas pela Cinemateca de Bolonha. Para lembrar que documentários também podem ser belíssimos espetáculos de cinema.

“O Transporte dos Cariocas”

janeiro 16th, 2011 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

Eis abaixo um pedacinho do tempo em que havia cinejornais – e alguns eram uma arte. O pequeno doc de 10 minutos foi realizado em fins dos anos 1950 ou, mais provavelmente, início dos 60. Movido sem dúvida por interesses privados ou públicos, era um ataque aos lotações e à obsolescência dos bondes, uma defesa da unificação dos serviços de transporte e uma propaganda antecipada dos trolleys, ônibus elétricos que entrariam na paisagem do Rio em 1962.

A direção é de Jean Manzon (1915-1990), francês que veio para o Brasil com carta de recomendação de Alberto Cavalcanti. Aqui foi um prolífico fotojornalista e produtor de cinejornais e docs institucionais (conheça o site do acervo ). A narração é de Luiz Jatobá, um dos mais célebres locutores do rádio e da TV brasileiras.

Para além de seu discurso datado e interesseiro, o filmete traz uma visão dinâmica, crítica e bem-humorada da cidade na época.     

Obrigado pela dica, Sergio Caldieri.

Apontamentos sobre os ‘Appunti’ de Pasolini

janeiro 13th, 2011 § Deixe um comentário

O Instituto Moreira Salles exibe nos dias 14, 19 e 27 o raro filme Anotações para Filmar Orestes na África (Appunti per un’Orestiade Africana), de Pier Paolo Pasolini. Abaixo, o texto que escrevi para o folder mensal do IMS:    

1.

 O formato de “Apontamentos”, “Anotações” ou simplesmente “Notas” costuma ser adotado por cineastas de várias latitudes como uma forma de libertação. De alguma maneira, ele isenta o autor de cumprir exigências narrativas mais constituídas, seja da dramaturgia ficcional, seja da retórica documental. As “notas” cinematográficas permitem uma aproximação maior com o formato do ensaio, em que afirmações definitivas são substituídas por perguntas, ideias em andamento e raciocínios não necessariamente concludentes. Como este texto aqui, que não pretende dar conta de tudo o que Pier Paolo Pasolini mostra e diz em Appunti per uma Orestiade Africana.

Por seu caráter assumidamente fragmentário, as “anotações” admitem a convivência de materiais muito diversos, assim como câmbios bruscos de enunciação e todo tipo de variações em torno de um ou mais temas. “Um estilo sem estilo”, como diz Pasolini.

Pertencem a essa estirpe filmes de Fellini (o autorreflexivo Anotações de um Diretor), Wim Wenders (o documentário ensaístico Notas sobre Roupas e Cidades) e Jonas Mekas (o autobiográfico Diaries, Notes and Sketches), para citar apenas alguns mais célebres e que afirmam sua condição já no título. O próprio Pasolini exercitou esse “estilo sem estilo” em pelo menos dois outros filmes, sempre como suposto estudo para um longa-metragem que pretendia realizar. Em 1967, arrematou seus Appunti per un Film sull’India, manifesto da intenção de adaptar para a Índia contemporânea o conto moral de um marajá que sacrificava seu corpo para salvar um tigre. No ano de 1970, além desta Orestíade, ele faria Appunti per un Romanzo sull’Immondezza, filme sobre uma greve de garis. Podemos ainda incluir no mesmo grupo o Sopralluoghi in Palestina per il Vangelo Secondo Matteo, documentário sobre a busca de locações para o longa referido.

Mesmo se o suposto filme futuro não se realizou (como foram os casos da Orestíade africana e do filme sobre a Índia), esses insights no método de criação de PPP ajudam a iluminar outros projetos semelhantes que acabariam concretizados. Através deles, ficamos compreendendo melhor o processo intelectual e as justificativas históricas e políticas de filmes como Medeia, Édipo Rei e As Mil e Uma Noites, outras transposições de grandes textos clássicos para cenários do Terceiro Mundo.   CLIQUE PARA PROSSEGUIR NA LEITURA

Febre de cinema

janeiro 12th, 2011 § 3 Comentários

Em primeira mão, a capa e a lista de matérias da Filme Cultura nº 53, que será lançada no dia 28, às 17 horas, na Mostra de Cinema de Tiradentes. O dossiê temático dessa edição, “Febre de cinema”, esquadrinha o sentido, a história e as modalidades de cinefilia no Brasil.

A FC 53 estará em breve no site da Filme Cultura . Ali você pode também consultar os pontos de venda da revista impressa.

 

Lista de matérias

EDITORIAL Gustavo Dahl

CEC, O FRAGMENTO DE UM TEMPO DO CINEMA Geraldo Veloso

PERIÓDICOS DE CINEMA NO BRASIL Hernani Heffner

SALAS DE CINEMA COMO TEMPLOS DE CINEFILIA Rodrigo Fonseca

PORQUE CINEMA É A CACHAÇA DE MUITA GENTE Débora Butruce

PEQUENO ABECEDÁRIO DE UM CINÉFILO DA PERIFERIA Marcus Vinícius Faustini

UM BREVE PASSEIO PELAS BORDAS DO CINEMA BRASILEIRO Bernadette Lyra e Gelson Santana

SGANZERLA, O CINEASTA CINÉFILO Raquel Wandelli

A CINEFILIA CANIBAL DOS FILMES DE CARLOS REICHENBACH Daniel Caetano

FILMAR COMO RETRIBUIÇÃO / WALTER LIMA JR. Fábio de Andrade

A CINEFILIA ONLINE Carlos Alberto Mattos

FILME CULTURA ENTREVISTA ADHEMAR DE OLIVEIRA

ENSAIO FOTOGRÁFICO Walter Carvalho

CINÉFILOS DE CARTEIRINHA RESPONDEM

LISTA: OS FILMES MAIS QUERIDOS DO CINEMA BRASILEIRO

CINEMATECA DE TEXTOS / ESBOÇO DE UMA ANATOMIA DO FÃ Ronald F. Monteiro

LIVROS / JAIRO FERREIRA NO SÃO PAULO SHIMBUN João Carlos Rodrigues

UM FILME / 500 ALMAS Daniel Caetano e Marcelo Ikeda

PERFIL / RUBEM BIÁFORA Gustavo Dahl

OUTRO OLHAR / O CAÇULA DO BARULHO João Carlos Rodrigues

E AGORA, LÍRIO FERREIRA?

E AGORA, ANNA MUYLAERT?

ATUALIZANDO / UMA CÂMERA, FOTOGRÁFICA, NA MÃO Marcelo Cajueiro

 LÁ E CÁ / O VÍRUS BOM DO DOCTV Carlos Alberto Mattos

CURTAS / CINEMA SOBRE CINEMA Joana Nin

PENEIRA DIGITAL Carlos Alberto Mattos

CINEMABILIA

Walter Lima Jr. na Fundição

janeiro 12th, 2011 § 1 Comentário

Transcrevo o release da Mostra Walter Lima Jr., que começa amanhã (quinta) no Cineclube Digital da Fundição Progresso. Contribuí com algumas declarações e trecho do meu livro sobre o diretor.

“Poucos cineastas brasileiros conseguem ser tão brasileiros e universais ao mesmo tempo. Poucos fazem a ponte entre cinefilia e realização como Walter. Poucos, enfim, têm um cinema capaz de simultaneamente encantar e fazer pensar.” Carlos Alberto Mattos, autor do livro “Walter Lima Júnior: Viver Cinema”

Por essa razões o Cineclube Digital começa sua programação de verão homenageando um dos grandes mestres da filmografia nacional, o cineasta Walter Lima Junior, fazendo um recorte do melhor da sua obra. A programação contará com seis filmes de diferentes momentos da carreira do diretor, começando no dia 13 de janeiro com “Menino de Engenho”, de 1965, passando pelo premiado “Brasil Ano 2000”, de 1969, e pelo cultuado “A Lira do Delírio”, de 1978.

 “A liberdade e os riscos de A Lira do Delírio chegariam incólumes às salas de cinema. Quando começou a ser mostrado em sessões privadas, a impressão é de que, em cada cabeça, desenrolava-se um filme particular. Havia quem entendesse todo o enredo como um efeito da loucura carnavalesca dos personagens. Ou como um sonho. Muitos nunca tinham encontrado tamanha liberdade num filme de acabamento tão sofisticado. Outros ficavam pasmos pelo motivo oposto: como Walter tinha conseguido manter o pulso firme em meio a tanta instabilidade” (trecho do livro “Walter Lima Júnior: Viver Cinema”, de Carlos Alberto Mattos).

Há ainda na programação os filmes: “Inocência”, de 1983, que lançou a atriz Fernanda Torres aos 17 anos, o pouco conhecido documentário “Uma Casa para Pelé” e o belo “A Ostra e o Vento”, que também revelou a atriz Leandra Leal. Aliás, Walter Lima Junior é conhecido por lançar atores novos no cinema.

A mostra surge em um momento interessante da carreira do diretor, que filmará a partir do meio deste ano um longa-metragem de um gênero pouco comum no cinema brasileiro, o suspense. “O Outro lado do Vento” conta a história de uma professora e seus dois pupilos, uma menina de nove anos e um menino de 11, que vivem em uma casa com fantasmas.

A Mostra Walter Lima Jr. começa no dia 13 de janeiro e vai até o dia 24 de fevereiro no Cineclube Digital, na Fundição Progresso, que fica na Lapa. As sessões começam sempre às 18h30 e são iniciadas pela exibição de um curta-metragem.

Programação:

13/01- “Menino de Engenho”
27/01- “Brasil Ano 2000”
03/02- “A Lira do Delírio”
10/02- “Inocência”
17/02- “Uma Casa para Pelé”
24/02- “A Ostra e o Vento”

Horário: Sempre às 18h30
Local: Cineclube Digital
Rua dos Arcos, 24 a 50- Lapa- Fundição Progresso
e-mail: arcosdigitalfilmes@gmail.com
Contatos: 2532-4308 / 2215-4541

Desculpem a nossa falha

janeiro 11th, 2011 § Deixe um comentário

Por um equívoco técnico, antecipei a publicação do artigo “Apontamentos sobre os Appunti de Pasolini”, de uma maneira que nem todos os assinantes do blog estão tendo acesso integral. O texto será publicado corretamente na quinta-feira.

A história de três quases

janeiro 11th, 2011 § Deixe um comentário

Agora que o cinema brasileiro parece tomar um novo fôlego de mercado, e que o assunto vira matéria de reflexão acadêmica e lançamentos editoriais, o momento é oportuno para relembrar outros capítulos dessa história. A partir de amanhã (quarta), o Canal Brasil vai exibir Luz & Ação, três programas em que Maurice Capovilla e Marília Alvim reuniram memórias de colegas sobre três episódios da luta dos cineastas brasileiros pela conquista do mercado. O subtítulo da trilogia corre o risco de continuar atual: “Quase fomos o que queremos ser”.

Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Cacá Diegues e Hugo Carvana têm a palavra. E é nas palavras que os programas se sustentam, dispensando materiais de arquivo e quase totalmente cenas de filmes para ilustrar, complementar ou instabilizar o que é dito.

O primeiro programa (quarta 21h, com reprise sábado 11h30) descreve a trajetória da Difilm (1965-69), iniciativa pioneira de produtores e diretores do Cinema Novo que se associaram para assumir a distribuição de seus próprios filmes. A empresa que Lima Jr. define como uma “visão coletiva” transplantada para a esfera comercial teve uma vida curta mas radiante. Gerou lucros e fomentou novos filmes. Quando se dissolveu por conta de dissenções internas, já se anunciava no horizonte a criação da Embrafilme (1969-1990), objeto do segundo programa (dia 19 às 21h, com reprise dia 22 às 11h30).

Zelito Viana abre e fecha este programa de maneira retumbante. “A Embrafilme foi criada pelos militares para comprar o silêncio dos cineastas”, afirma no início. Mas a armadilha seria convertida numa galinha dos ovos de ouro pela habilidade política de cineastas como Farias, Barreto e Glauber, levando o cinema brasileiro a dominar 30% do mercado (no programa, fala-se em 42 e até 50%, mas os números não confirmam). De qualquer forma, o sucesso da Embra no período áureo 1974-1978 chegou a assustar os americanos, e isso é lembrado com alguns espasmos de xenofobia habituais na turma dos sessenta e setenta. Ao final do programa, coberto de razão, Zelito acusa a Veja e a Folha de São Paulo de terem publicado matérias encomendadas pela Motion Pictures Association para minar a Embrafilme, precipitando sua decadência.   

O terceiro programa (dia 26 às 21h, com reprise dia 29 às 11h30) é o único que não obtém ótimo rendimento narrativo da costura de falas. Um pouco porque o projeto da Cooperativa Brasileira de Cinema (1978-1982) nasceu falido. Cerca de 70 diretores e produtores do Rio e São Paulo arremataram um conjunto de salas deixado pela Pelmex e tentaram formar um circuito de exibição. Não mais de um ano após a criação, a CBC já exibia seu fracasso. Poucas lembranças ficaram, em boa parte registradas no jornalzinho Luz & Ação, lançado pela cooperativa em 1981 e que dá título a esta série.

O segundo bloco desse último programa é ocupado por análises do momento atual do cinema brasileiro, onde abunda a palavra “falta”. Segundo os cineastas ouvidos, falta confiança nos cineastas, falta conteúdo para as novas tecnologias, falta sala, falta “projeto”, falta “política”. Walter Lima Jr. cita o projeto da Ancinav como uma solução infelizmente metralhada no meio do caminho. Roberto Farias pede a volta do adicional de renda, discute-se a participação do estado.

Os tempos e o modus operandi  do cinema brasileiro são hoje muito diferentes da época da Difilm, Embrafilme e CBC. As ideias de grupo e classe que animaram aqueles três momentos não comovem os participantes de editais do século 21. Como reconhece Capovilla, “podem ser considerados hoje utópicos, mágicos ou  surrealistas, típicos daqueles tempos quando os cineastas, sem necessidade de serem amigos, uniam-se num propósito único”. Mas esse resgate histórico fornece uma perspectiva interessante, quando nada para se entender o que Barretão quer dizer quando fala: “O filme brasileiro deu certo, mas o cinema brasileiro não”.

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Aproveite para ver um primeiro e curto (2,5 minutos) making of do novo longa de Capovilla, Nervos de Aço:    

Onde está Hitch?

janeiro 9th, 2011 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

O Youtube está cheio de clipes com as cameo appearances de Alfred Hitchcock. Aquelas cenas em que ele fazia aparições rápidas, umas mais, outras menos dissimuladas, como uma espécie de assinatura divertida nos seus filmes. Já foi passatempo de cinéfilo enumerar as aparições, fosse passando discretamente por uma calçada, tentando pegar um ônibus ou insinuando-se como uma silhueta ou mesmo uma foto no jornal. Houve até quem decobrisse um estranhíssimo fantasma hitchcockiano numa cena de O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais:

Conheci recentemente, através de uma dica de Sergio Caldieri, uma coletânea de aparições que me pareceu bem feita, apesar de incompleta.  O autor, Roy van der Zwaan, usou apenas os filmes que possuía em DVD, deixando de fora pelo menos sete títulos. Ainda assim, é uma das mais abrangentes que se pode encontrar. E com o requinte de “iluminar” a figura de Hitch. Curta aí, se já não curtiu antes:

        

‘La Latina’ na Peneira Digital

janeiro 7th, 2011 § 3 Comentários

http://www.lalatina.com.br/wp/

Um blog especializado em cinema latino-americano escrito em português. Simples assim, mas único na internet, o La Latina existe há quase quatro anos. Recentemente ganhou cara nova e abriu-se às colaborações de leitores. Camila Moraes, a brava criadora, mira o cinema das Américas do Sul e Central, e também do México, conjunto que ela considera hoje “forte e renovado”.

No La Latina encontramos entrevistas com diretores, coberturas de festivais, textos sobre novos filmes da região e uma agenda de eventos onde o audiovisual latino-americano tem destaque. Além de muitos trailers e clipes relacionados ao assunto. É uma maneira fácil e organizada de manter-se em dia com uma produção que não frequenta a mídia convencional nem costuma chegar às telas dos computadores no nosso idioma. 

O blog é clássico e apresenta forte identidade visual nas cores amarelo, vermelho e preto. Tem um perfil mais noticioso do que crítico ou ensaístico. Sua intenção é sublinhar a presença do cinema latino-americano no mundo e, eventualmente, no Brasil. Serviço de primeira necessidade.

A tropa dos críticos

janeiro 5th, 2011 § Deixe um comentário

A Fita Branca, de Michael Haneke (foto abaixo), foi apontado como o melhor filme de 2010 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). Reunidos na noite de ontem, 16 críticos cariocas elegeram os melhores do ano e uma nova diretoria da associação para o período 2011-2012.

A lista dos 10 melhores do ano – eclética como o grupo de associados – inclui grandes sucessos populares como o brasileiro Tropa de Elite 2, o argentino O Segredo dos seus Olhos e o anglo-americano Kick-Ass – Quebrando Tudo. E também obras de diretores há muito consagrados como Bellocchio, Scorsese, Polanski e Woody Allen. Todos estarão em breve numa mostra no CCBB-Rio. São eles, em ordem de votação: 

  1. A Fita Branca, de Michael Haneke
  2. Tropa de Elite 2, de José Padilha
  3. Vencer, de Marco Bellocchio
  4. Mother, de Bong Joon-Ho
  5. Um Homem Sério, de Joel e Ethan Coen
  6. O Segredo dos seus Olhos, de Juan José Campanella
  7. O Escritor Fantasma, de Roman Polanski
  8. A Ilha do Medo, de Martin Scorsese
  9. Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen
  10.  Kick-Ass – Quebrando Tudo, de Matthew Vaughn

Reatando com uma tradição abandonada nos últimos anos, a ACCRJ escolheu também dois acontecimentos como as “Melhores Iniciativas para a Valorização do Pensamento Cinematográfico” em 2010. Entre os eventos, elegeu a Mostra John Ford no CCBB, pelo conjunto de filmes em cópias excelentes e pela qualidade dos “periféricos” (catálogo e curso). No campo das publicações, o destaque foi para a retomada e reedição histórica da revista Filme Cultura.

Na mesma reunião, os críticos cariocas elegeram Mario Abbade (O Globo e www.almanaquevirtual.uol.com.br) como novo presidente da ACCRJ. A nova diretoria é composta ainda pelo vice-presidente Luiz Fernando Gallego (www.criticos.com.br), o secretário Daniel Schenker (Jornal do Brasil e www.criticos.com.br) e o tesoureiro Leonardo Luiz Ferreira (www.almanaquevirtual.uol.com.br).

Olhares críticos sobre a classe média

janeiro 3rd, 2011 § 2 Comentários

Mais um texto que fiz para recente lançamento em DVD da Programadora Brasil reunindo o longa Opinião Pública, de Arnaldo Jabor, e o curta A Entrevista, de Helena Solberg.

Dois filmes sobre a classe média carioca dois anos depois do golpe de 1964. Em seu primeiro longa-metragem, Opinião Pública, Jabor aplica princípios do cinema-verdade para examinar os sonhos e projetos (ou sua falta) de uma vasta fauna humana para quem a câmera de cinema no meio da rua ainda era uma grande novidade. O filme, um clássico do documentário moderno brasileiro, acaba flagrando também o absurdo que existe por trás do cotidiano, bem à maneira do que Jabor faria depois na ficção. O complemento do DVD é o primeiro curta de Helena Solberg, uma reflexão de mulheres sobre os valores burgueses em voga no período. A última sequência, alusiva ao golpe militar, explicita a análise política que esses dois filmes faziam sobre o imobilismo e a alienação da classe média.

Opinião Pública

Diferentemente da maioria dos filmes produzidos sobre o Rio de Janeiro na década de 1960, Opinião Pública não está interessado nas paisagens nem nos estereótipos do carioca. Ao contrário, é com prazer quase voyeurístico que Arnaldo Jabor se infiltra em apartamentos de Copacabana, numa imunda república de estudantes da Lapa, num terreiro de candomblé, numa boate superlotada, no circo de milagres de uma curandeira de subúrbio. A câmera de Dib Lutfi em Opinião Pública cola à pele das pessoas para tentar alcançar uma espécie de terceira dimensão – aquela tridimensionalidade que se constrói no ato da fala, da dança, do delírio coletivo.

Mais que uma imagem da cidade, este marco do documentário brasileiro sai à procura da expressão de uma classe. É a classe média, vista como a grande responsável pelas contradições expostas pelo Cinema Novo. O imobilismo político em troca da mobilidade social, o culto às celebridades, o vazio de projetos, tudo o que Jabor detectou na classe média carioca certamente já estava num diagnóstico prévio do realizador. Embora o Cinema Novo privilegiasse a dicotomia mais dramática povo-burguesia, esse estamento social intermediário constituía um alvo privilegiado na mentalidade dos cineastas, quase todos saídos da própria classe média.

Obviamente, está ali uma estratégia de inclusão/exclusão que fabrica a ironia costumeira das reflexões de Jabor, até nos seus textos recentes para a imprensa. A voz imponente do narrador abre o filme falando em “nós”. No entanto, essa demonstração de consciência dos problemas cria uma nuance na inclusão de quem fez o filme. No fundo, esse “nós” quer significar “eles”.

O primeiro longa-metragem de Jabor atende à dupla pauta do Cinema Novo: revelar em profundidade o país e afinar o cinema brasileiro com os procedimentos do cinema moderno. Opinião Pública é um dos melhores reflexos, no Brasil, da revolução que se instalou no reino dos documentários no alvorecer dos anos 1960. O advento das câmeras leves e do som sincronizado tirou os cineastas do estúdio e os levou para o olho da realidade. A enorme influência de Crônica de um Verão (1960), de Jean Rouch e Edgar Morin, responde por essa nova concepção de cinema-verdade, em que os fatos se precipitam pela presença da câmera, e não a despeito dela.

É a presença da câmera que aciona nas pessoas o desejo de falar e as interrelações que se estabelecem brevemente dentro do quadro. É a câmera que estimula as micagens do menino, capazes de desconstruir a entrevista do avô numa cena hoje antológica. É à câmera que a “santa” Isaltina e seu companheiro se dirigem para exortar os espectadores. A câmera é esse olho expositivo, implacável, diante do qual se produz a chamada opinião pública.

O curta A Entrevista bem poderia ser uma costela retirada de Opinião Pública. Ali está o mesmo desejo de captar o pensamento de um grupo social – no caso, mulheres jovens da classe média alta carioca. Mas Helena Solberg não segue o figurino estrito do cinema-verdade. A montagem de Rogério Sganzerla divorcia imagem e som, editando depoimentos em off sobre as imagens de uma única personagem, uma moça que vai à praia e se prepara para a cerimônia de casamento. Os valores femininos burgueses dançam diante de nossos olhos e ouvidos, concluindo com o veredicto da alienação política. Vivia-se a sociologia do questionamento, ou seria o questionamento da sociologia?

Os …rastros em 2010

janeiro 2nd, 2011 § 1 Comentário

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho do …rastros de carmattos em 2010 e apresentam aqui um resumo da saúde do blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Números apetitosos

Imagem de destaque

O Madison Square Garden pode acolher 20.000 pessoas para um concerto. Este blog foi visitado cerca de 64,000 vezes em 2010. Se fosse um concerto no Madison Square Garden, teria que ser repetido 3 vezes.

Em 2010, escreveu 207 novos artigos, aumentando o arquivo total do seu blog para 426 artigos. Fez upload de 236 imagens, ocupando um total de 13mb. Isso equivale a cerca de 5 imagens por semana.

O dia de maior frequência foi 5 de maio com 1,400 page views. O post mais popular foi Yes, nós sabemos copiar.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram twitter.com, facebook.com, google.com.br, mail.yahoo.com e ilustradanocinema.folha.blog.uol.com.br

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por malu rodrigues, bio para twitter, bio twitter, bios para twitter e bio do twitter

Atrações em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

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Yes, nós sabemos copiar setembro, 2009
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