Notas sobre o partido da imprensa

1.

Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.

Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…

Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.

OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?

2.

Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.            

O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização. 

O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?          

3.

A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.

O resto é demagogia e manipulação.  

3 comentários sobre “Notas sobre o partido da imprensa

  1. Maravilho o seu post, realmente é até um pouco chato acompanhar esses colunistas, pois é até previsível a atitude deles.
    Parabéns

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