Bem melhor que seu segundo filme, Les Amours Imaginaires, exibido no último Festival do Rio, o longa de estreia do jovem-prodígio Xavier Dolan me inspirou esse pequeno comentário no festival de 2009. Agora está em cartaz.
O abismo entre mãe e filho é uma fenda que se abre com facilidade. Mas para Hubert Minel, a queda é diária e incontornável. Hubert é gay, o que torna esse abismo ainda mais doloroso. Sua mãe faz “barracos”, come sem elegância, não sabe quem é Pollock, tem amigas peruas e um gosto cafona. Hubert poderia matá-la, se conseguisse odiá-la. O tema difícil é tratado como um desabafo semi-autobiográfico pelo diretor-roteirista-ator Xavier Dolan, 19 anos quando filmou. Não com a virulência de Tarnation, aquele doc definitivo sobre assunto parecido, mas com a agressividade de quem precisa exorcisar um mau sentimento. A história dessa convivência difícil, similar à de uma crise conjugal, é atravessada por uma visão caricata dos adultos e as fantasias de Hubert, que têm valor de crítica cultural do mundo brega québequois. Embora caia na tentação de alguns enquadramentos vaidosos, Dolan é um jovem diretor surpreendentemente parcimonioso no uso da imagem e sugestivo na criação de atmosferas. Uma boa promessa, se este não for apenas um acerto de contas pessoal.