Teclado moçambicano

Um documentário moçambicano está correndo o mundo lusófono com roupa de gala. Junto a outros realizados no âmbito do programa DOCTV CPLP, Timbila & Marimba Chope participou da competição do Festival Internacional de Cinema de Luanda e vem sendo exibido por emissoras de TV em nove países. Esta semana, foi uma das estrelas do megaevento Brasilidade no Rio de Janeiro, onde o seu diretor, Aldino Languana, participou de uma série de debates sobre o cinema de expressão portuguesa. 

Curiosamente, porém, são dois outros idiomas que se destacam no filme de Languana: o chope, falado em certas áreas de Moçambique, e o idioma mais universal da música. Timbila & Marimba Chope narra com detalhismo didático o processo de fabricação da mbila, uma espécie de xilofone, instrumento um tanto mítico do país de Samora Machel e declarado pela Unesco como patrimônio imaterial da Humanidade. Ou melhor, quem narra mesmo é o mestre Estêvão, um célebre artesão e tocador de mbila da região de Zavala. 

O filme consegue a rara proeza de fazer confluírem simultaneamente duas anotações etnográficas de grande importância: de um lado, os “segredos” da construção da mbila; de outro, a maneira muito particular de Estêvão contar suas histórias, que vale por uma imersão na fabulação do povo da Zavala. Sua prosódia saborosa e o estilo com que apresenta as informações ditam o ritmo “musical” do documentário.

Estêvão é ao mesmo tempo personagem, narrador, entrevistador, mestre de cerimônias e entertainer. Enquanto cede esses papéis ao mestre da timbila, Aldino Languana mantém as rédeas da direção mediante uma exposição progressiva do fabrico de uma mbila, com todas as suas injunções materiais, técnicas e mesmo espirituais. A localização de uma colmeia subterrânea e a coleta da cera especialíssima para colar partes do instrumento (as cabaças de massala) abrem caminho para uma reflexão que transcende o mero artesanato. Uma senhora participa desse processo com sua sabedoria quase mágica, embora não saiba precisar quantos anos tem. “Saber a idade é coisa de gente moderna”, diz ela.

A origem da mbila também se perde em tempos imemoriais – o que, afinal, importa menos do que sua preservação no presente e a transmissão de seus “segredos” para as futuras gerações. É isso o que o filme de Aldino Languana garante através da memória audiovisual.

O som da mbila marca o documentário com seu ritmo alegre e polifônico, às vezes competindo com outras informações sonoras pela atenção do espectador. Nem sempre isso é produtivo para a economia expressiva do filme. Em compensação, quando na sequência final a orquestra timbila e a dança chope inundam a tela numa noite ao ar livre, já estamos íntimos de tudo e o efeito é arrebatador.          

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