Vozes da Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau não tem propriamente uma estrutura de cinema, mas isso não quer dizer que não tenha talentos cinematográficos. Um deles certamente é Domingos Sanca, diretor de Rio da Verdade, projeto ganhador do DOCTV CPLP em seu país. O documentário de média-metragem, produzido por Carlos Vaz, está sendo exibido em emissoras de nove países, além de festivais e mostras como a Brasilidade, em cartaz no Rio de Janeiro.

Domingos Sanca trabalha na televisão nacional da Guiné-Bissau e se responsabilizou também pela bela fotografia de Rio da Verdade. As imagens revelam uma área paradisíaca do noroeste do país, o Parque Natural do Rio Cachéu. Esse paraíso encontra-se ameaçado pela desertificação com o avanço progressivo do Saara a partir do Senegal, ao norte. A direção do parque implantou uma política de proteção que coíbe a derrubada de grandes árvores e a caça e a pesca indiscriminadas. Embora sejam acompanhadas de orientações para práticas menos agressivas ao meio-ambiente, essas normas colidem com certas rotinas de subsistência tradicionais dos moradores da região.

O conflito se assemelha ao dos caboclos da Amazônia com as regras do Ibama, como já foi mostrado em diversos documentários brasileiros. Mas nenhum que eu conheça logrou apresentar esse dilema com o grau de dramaticidade de uma cena de Rio da Verdade. A propósito da derrubada ilegal de uma árvore, dois funcionários do parque discutem com um lavrador os direitos e obrigações dos moradores. Cada lado expõe suas razões diante da câmera, deixando claro o choque entre os interesses individuais – amparados na tradição, na noção de posse e na necessidade imediata – e as exigências da sustentabilidade, voltadas para o futuro e o bem coletivo. É uma cena rara e forte, que mobiliza a consciência do espectador.

A importância do Rio Cachéu é mais que ecológica. É mítica e política. Para além dos limites do parque, nas duas margens do rio, localizam-se duas etnias rivais. O rio, cantado em versos por poetas guineenses como Mussá Baldé, é fonte de vida e lugar sagrado para a população. As ambiguidades da relação entre espiritualidade e sobrevivência são ilustradas pela questão dos hipopótamos. Considerados parentes dos homens, eles não devem ser mortos. Mas com frequência devastam as plantações de arroz, causando enormes prejuízos. Quando alguém abate um deles, a comunidade faz um ritual de expiação e prontamente se farta com sua carne generosa.

Rio da Verdade tem a qualidade, relativamente rara em filmes etnográficos, de abordar seu tema através de muitas vozes, onde não faltam contradições e controvérsias. Além disso, assume um caráter não didático, mas baseado na observação da natureza e dos homens. O ritmo é distendido e evocativo, privilegiando o tempo largo do rio e a cadência natural dos trabalhos no campo e das cerimônias religiosas.

Domingos Sanca merece toda atenção com seu novo projeto sobre o Arquipélago dos Bijagós, reserva natural colocada em risco pela ação de pescadores clandestinos e a recente descoberta de petróleo. Nesse filme, o diretor pretende trabalhar nos limites entre ficção e documentário, para isso incorporando a história de um casal conflagrado pelas obrigações ritualísticas da etnia Bijagó. 

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